A arte do sobressalto, José Castello

José Castello @Cristovão Tezza

O escritor, jornalista, ensaísta e crítico literário José Castello reflete sobre sua experiência como curador do Oceanos (quando o prêmio ainda se chamava Portugal Telecom) e sobre a experiência de gravar, com o diretor Joel Pizzini, o ensaio visual sobre seu livro Dentro de mim ninguém entra, que concorreu na edição de 2017.

 

José Castello

O prêmio Oceanos me deu – além da oportunidade de ler e meditar a respeito de centenas de livros contemporâneos – dois presentes especiais. Na fase ainda regida pela Portugal Telecom, tive a chance de participar, ao lado da curadora e amiga Selma Caetano, de uma vibrante aventura intelectual: organizar e escrever O livro das palavras, reunião de entrevistas e ensaios breves sobre os principais vencedores do prêmio desde a sua criação. Entrevistar e escrever são duas experiências – aliás complementares – que, desde pequeno, sempre me fascinaram. A chance ímpar de entrevistar grandes escritores e, em seguida, refletir de uma maneira mais organizada sobre eles e suas obras, depois materializadas em um livro, me abriu novos e promissores horizontes.

Escutar e meditar: eis duas experiências que sempre me interessaram muito. As entrevistas são, antes de tudo, a arte da escuta. É preciso escutar desarmado, protegido pelo mínimo de defesas, sem nada desejar, sem nada buscar, ou você não consegue, de fato, se aproximar de alguém. Este é um projeto difícil, já que estamos sempre nos protegendo e cheios de esperanças, mas é também um projeto ousado. Que, se não é inteiramente realizável, vale, sobretudo, como ideal a perseguir. Largar as armas, desarmar-se, mostrar o peito aberto é fundamental para se aproximar do outro. Se você já chega com os dentes arreganhados e as armas em punho, nenhuma entrevista, nenhum retrato, de fato, se realiza.

Isso vale também para o momento de escrever. No caso, escrever um ensaio. Um ensaio deve ser exatamente o que o nome diz: um teste – de acerto e erro –, uma tentativa, uma experiência, que você faz sem saber muito bem aonde chegará e como chegará. Numa palavra mais simples: uma aventura. Sem o espírito aventureiro, sem o desejo de descobrir e de se defrontar com o inesperado, você pode fazer uma boa tese, uma boa defesa, uma boa argumentação; nunca um ensaio que mereça esse nome.

O mesmo contato com o inesperado foi a base do ensaio que gravei sob a direção do cineasta Joel Pizzini — disponível na seção Prisma Literário deste site da Associação Oceanos. Um ensaio sobre meu livro Dentro de mim ninguém entra (Berlendis & Vertecchia), mas também sobre o artista Arthur Bispo do Rosário. Assino o livro ao lado de Bispo. A reprodução de algumas de suas principais obras servem como “ilustrações” – mas a palavra é injusta e insuficiente – de minha narrativa. Suas imagens e minhas palavras se entrelaçam, mesmo seguindo em direções diferentes. Meu livro não é uma biografia do Bispo. Não é uma entrevista com ele. É apenas a história de um menino triste, e que também se sente prisioneiro, chamado Arthur. Batizá-lo com o nome do Bispo não foi só uma provocação, foi uma homenagem. Há muitos anos a obra de Arthur Bispo do Rosário me persegue e, com Dentro de mim ninguém entra, creio que, enfim, encontramos uma via de contato.

O ensaio de Joel Pizzini, batizado “Transe visionário”, foi gravado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio, onde Bispo esteve internado por longos anos, como paciente psiquiátrico, e onde ele realizou toda a sua surpreendente obra visual. Pizzini – um diretor inventivo e destemido – decidiu me colocar em cena, cara a cara, com um dos internos contemporâneos ao Bispo, justamente aquele que habitou a cela vizinha à sua. Foi um encontro difícil, às vezes um pouco agressivo, às vezes – preciso usar a palavra – até mesmo assustador. Em meio a nossa conversa, que teve aspectos de um embate, esse interno simplesmente “incorporou” o Bispo. Às alterações de voz e de postura se juntou uma atitude mais agressiva e radical, com a qual fui levado, no susto, a dialogar. Apesar do primeiro impacto, foi uma experiência muito rica. Obrigado a usar todos os meus recursos de jornalista profissional, e muitos outros além deles, consegui enfim me entender com meu entrevistado. Ou foi ele quem me entrevistou? Os papéis se romperam, as fronteiras se rasgaram e o imprevisto, com toda a sua potência e agitação, regeu a cena. E foi sobretudo por isso que Pizzini realizou um grande trabalho, do qual tive a honra de participar.

Tanto em O livro das palavras como em “Transe visionário”, fui obrigado a exercitar a arte do encontro, que envolve sempre o desarme, a surpresa e até o susto. Envolve o medo. Estamos sempre diante do Estranho – isso até mesmo quando nos observamos, solitários, diante do espelho. O encontro com o outro, seja ele um escritor premiado, ou um ex-prisioneiro, exige de nós, repórteres ou não, o peito aberto. Ou não escapamos de nós mesmos e de nossos velhos hábitos, ou permanecemos prisioneiros de nossa própria miséria. A arte, ou produz deslocamento e sobressalto e rompe a casca dos hábitos, ou arte não é.