A formação do escritor a partir do olhar dos finalistas de 2007

Criado em 2003 com o nome de Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, em 2007, o Oceanos passou a contemplar livros escritos originalmente em língua portuguesa em qualquer lugar do mundo, desde que publicados por editoras sediadas no Brasil. Naquele ano, para a cerimônia de anúncio dos vencedores – conduzida pelo jornalista e escritor Edney Silvestre –, a curadora do prêmio Selma Caetano propôs uma provocação aos escritores finalistas: “Será mesmo que o escritor é antes de tudo um leitor? Se sim, como se dá a formação do escritor? Alimentando-se do que veio antes?” Cada escritor enviou um breve texto a respeito do tema, que serviu para balizar a conversa ao vivo com Edney.

As perspectivas dos autores foram amplas, diversas e apontaram para o estado íntimo de criação de cada um deles. Mais que isso: revelaram o amor – palavra imprecisa e, por isso mesmo, infinita e precária – de cada um pela literatura. Dentre os depoimentos, é possível perceber que nem sempre o escritor encontra maneiras de indicar, com exatidão, as influências de sua obra. Curiosamente, para Marcos Siscar, “no fundo, a influência mais importante, que me preocupa, é a influência, digamos, inconfessável, aquela que acabou ficando como um fiapo no meio dos dentes do antropófago, aquela influência que eu não consigo mais reconhecer no que escrevo”.

Para Teixeira Coelho, que define os pontos que orientam sua escrita vindos tanto da literatura quanto de outras artes, “a definição de como ora escrevo deriva, antes, de decisões pela via negativa”. “Por exemplo, logo compreendi como não queria escrever”, pontuou. Em contraponto à negação certeira de Teixeira Coelho, encontramos a imprecisão igualmente certeira – definitiva – de Affonso Ávila: “o que vivi e o que penso é minha obra”.

Nos textos, presenciamos a “estranha” corrida de revezamento de Cíntia Moscovich – uma corrida em grupo, em que os escritores passam o bastão uns aos outros e seguem lado a lado. “Clarice Lispector invadiu a pista com fôlego de titã e me disse que eu podia seguir”, escreveu. Não menos estranha e surreal é a composição da paisagem de André Sant’Anna. “Lá”, aponta o autor, estão todos: de Beatles e Glauber Rocha a Ernest Becker e Jorge Mautner.

Mas por que criar, então, se já estão todos “lá”? Porque deve-se “tentar a cada dia ser influenciado; tentar em cada semana, pelo menos, descobrir um novo autor, um novo artista plástico, um novo dramaturgo, um novo filme. Porque um criador encontra o seu próprio caminho através de milhares de influências”, afirma Gonçalo M. Tavares.

O caminho é árduo, e igualmente difícil é conhecer a formação em literatura ou, em menor nível, o “falar de si” do escritor. Em texto enviado via fax, Dalton Trevisan aponta a razão: “Não há nada a dizer fora dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor do que o contista.”

Em 2007, Gonçalo venceu o prêmio com o romance Jerusalém, publicado pela Companhia das Letras; Dalton Trevisan ficou em segundo lugar com o livro de contos Macho não ganha flor, publicado pela Record, e Teixeira Coelho, em terceiro, com o romance História natural da ditadura, publicado pela Iluminuras. Porém, a mirada dos escritores finalistas demonstram o inegável mérito de cada um deles ao prêmio.

Compartilhamos aqui os textos na íntegra enviados por oito dos finalistas na esperança de que escritores que os lerem encontrem seus próprios caminhos, e de que os leitores possam, por fim, presenciar um pouco do momento de criação que há por trás de um grande livro – momento, este, que, nas palavras de Mia Couto, é o maior prêmio: “Nesse momento perdemos fronteira, somos estuário de muitos rios, escrevemos como infinitas mãos. Essas mãos são de um corpo que se chama Terra, que se chama gente, que se chama sonho.”

Gonçalo M. Tavares

Falo várias vezes disto: se alguém quer tentar fazer algo de novo é indispensável conhecer o que os outros fizeram antes. Daí a ligação entre escrita e leitura. Só pode escrever quem leu e quem lê. A este propósito, os chineses têm um conselho que é também uma maldição: “Não te atrevas a escrever um livro antes de ler mil”.

Pela minha parte, talvez exista uma metodologia que se poderia resumir assim: tentar a cada dia ser influenciado; tentar em cada semana, pelo menos, descobrir um novo autor, um novo artista plástico, um novo dramaturgo, um novo filme.

Acredito que um criador encontra o seu próprio caminho através de milhares de influências. É preciso receber muito, recolher muito; estar, em suma, atento ao que já foi feito e ao que se faz. É para mim impossível enunciar influências – seria sempre injusto. A cada dia essa dívida que tenho aumenta e é actualizada.

Será difícil um escritor encontrar o seu percurso privado, individual, se for influenciado apenas por um ou dois autores.

Pode parecer estranho, mas quanto mais influências, quanto mais um autor absorve – depois de uma digestão mental que ninguém é capaz de descrever ou explicar – mais esse autor pode ser inovador. O que lemos, o que vemos, as obras de arte com que nos cruzamos, tudo isto interfere na nossa massa interna, mas muito do que se absorvemos é esquecido. E, diga-se, devemos abençoar esta capacidade para esquecer. É ela que nos salva.

De tudo o que lemos ficarão talvez apenas algumas ruínas, uma ou outra pedra já deformada e irreconhecível. Mas é dessas ruínas que se fará a base de uma nova construção. E essas ruínas misturam-se com a nossa vida, com a experiência individual – com os sofrimentos e ainda com os momentos em que conseguimos não sofrer. É dessa mistura entre o que absorvemos da nossa experiência individual e o que absorvemos da nossa actividade enquanto leitores ou contempladores activos do mundo, que nos vamos formando.

Se formos empurrados por um só vento esse vento mandará em nós. Se, pelo contrário, formos empurrados, ao mesmo tempo, por centenas de ventos, aprenderemos as suas trajectórias e, com o domínio do nosso peso e com a ajuda dos ventos, caminharemos para onde queremos. Chegaremos ao nosso lugar.

Queria terminar falando do amor à literatura. Um escritor espanhol – Gómez de la Serna – conta a história de dois comboios que seguem em sentidos opostos e que param ao mesmo tempo numa determinada Estação ferroviária. Da janela de um dos comboios um homem olha para uma mulher que se encontra à janela do outro comboio. O que diz a história, é que esse olhar entre o homem e a mulher é tão forte, tão poderoso, que quando os dois comboios retomam a sua marcha, avançam – lado a lado – no mesmo sentido. É o olhar humano a vencer o determinismo da máquina.

Na realidade em que vivemos não sei se isto pode acontecer. Mas na literatura, sim: um olhar forte entre dois seres humanos pode mudar a trajectória de um comboio.

É por a literatura conseguir coisas destas que eu um dia quis ser escritor.

Dalton Trevisan

Nada a dizer fora dos livros. Só a obra interessa. O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.

Vampiro, sim, de almas. Espião de corações solitários. Escorpião de bote armado. Eis o contista.

Só invente um vampiro que exista.

Com sorte você adivinha o que não sabe.

Para escrever o menor dos contos a vida inteira é curta. Uma história nunca termina. Ela continua depois de você.

O bom escritor nunca se realiza, a obra é sempre inferior ao sonho. Fazendo as contas, percebe que negou o sonho, traiu a obra, cambiou a vida por nada.

O melhor conto tu escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado.

Todas as histórias – a mesma história e uma nova história.

O conto não tem mais fim que novo começo.

Quem lhe dera o estilo do suicida no último bilhete.

Texeira Coelho

Desde cedo senti forte aversão por todo culto à personalidade. Algo instintivo. Sobretudo na política, em que essa minha reação atinge o auge. Mas também na religião, na filosofia e na literatura. É um outro modo de dizer que não tenho heróis (sempre recordo a nota de Brecht sobre como são infelizes os povos que precisam de heróis – e, claro, citar Brecht não faz dele um herói para mim). Alguns poucos que admirei em excesso, eu mesmo em seguida os desconstruí. Não quer dizer que, em literatura, não admire vários autores – sem que isso signifique que gostaria de ter assinado seus livros.

A definição de como ora escrevo deriva, antes, de decisões pela via negativa. Por exemplo, logo compreendi que não queria escrever como os modernistas (frases curtas, parágrafos pequenos). Nunca aceitei também, desde o ginásio, ainda de modo intuitivo e sem argumentos teóricos, a tese de professores de português sobre o bem-escrever que mandava não repetir uma palavra, idéia ou frase porque isso seria mau estilo. Aos poucos, defini os pontos que me orientariam em minha escrita (atual) e que vieram tanto da literatura quanto de outras artes. A adesão de um dos primeiros artistas conceituais, Joseph Kosuth, ao princípio da redundância me confirmou nessa opção de estilo. (Godard também, na mesma linha). E a descoberta, depois dos russos, de escritores alemães contemporâneos como Peter Handke, Thomas Bernhard e W.G.Sebald, me confirmou a opção pelos textos densos, duros, quase impenetráveis – textos que exigem a adesão do leitor ou provocam sua repulsão. A repetição e a opacidade, na literatura como na vida.

Essas são minhas fontes: a literatura pesada, de toda parte, sem considerações de nacionalidade, e as outras artes. Mas, tudo isso vale circunstancialmente, para um livro. Amanhã, diante de um outro livro por escrever, outro ideário pode definir-se. Não acredito na voz única do autor e não a busco – razão, talvez, pela qual não cultuo personalidades…

Affonso Ávila

Em 19 de janeiro próximo, completo 80 anos de vida, mais de 50 dedicados aos estudos e à literatura.

Pude formar, com companheiros de geração, a frente brasileira de vanguarda da poesia, minha paixão e busca de excelência.

Simultaneamente, com meus ensaios sobre o barroco, procurei mudar a interpretação do estilo no Brasil, com êxito que a crítica me credita.

Eis em resumo: o que vivi e o que penso, é minha obra.

André Sant’Anna

Lá, os Beatles, Magical Mistery Tour, a poesia lá. O Glauber Rocha, lá, naquela angústia, despertando o fogo das paixões revolucionárias. Houve uma implosão no centro da terra, o Cristo lá, e o governo. Karl Marx lá. Kurt Vonnegut: o homem é bom? Então é isto, o homem? Nelson Rodrigues lá, sim, avisou: os idiotas estão vencendo. Os erros de português não são erros de português. Sebastião Nunes lá. O Chacal lá, paciência revolucionária, fé inquebrantável, música lá, poesia jogando bola. Eu sou Roberto Carlos, lá, na Panamérica do Agrippino, lá, no helicóptero, sobre o mar de gelatina verde, lá, Grace Kelly lá. Entradas de Guimarães Rosa, lá, naquela angústia dos fantasmas, o capeta todo lá, o sangue, a arte, a morte, aquela angústia dos cadáveres se decompondo, tornando petróleo, naquela angústia das criancinhas esguichando sangue. Sim. É. A criação é um pesadelo espetacular que ocorre em um planeta que vem sendo encharcado pelo sangue de todas as suas criaturas há centenas de milhões de anos. A conclusão mais moderada que poderíamos tirar do que realmente se passa neste planeta há cerca de três bilhões de anos é que está sendo convertido em imensa tulha de fertilizante. Mas o sol distrai nossa atenção, sempre secando o sangue, fazendo coisas crescerem por cima e com seu calor dando a esperança que provém do conforto e expansividade do organismo. Ernest Becker lá, naquela angústia, a morte lá, a qualquer momento lá. Lá, o comandante Jorge Mautner: todas as palavras na angústia otimista da liberdade. Galáxias se expandindo e as bocetas do povo lá.

Cíntia Moscovich

Sempre pensei — é essa é das poucas certezas que tenho — que a literatura, como a vida, é uma corrida de revezamento.

Uma corrida meio estranha, é verdade: aquele que passa o bastão passa a correr junto, ao lado do corredor que recém larga. Mais ou menos assim: fulano passa o bastão para sicrano, e ambos saem no pique para passar o bastão adiante.

Nós, aqui, hoje, leitores e autores, temos conosco todos os que formam a tradição. Levamos o bastão, sem saber exatamente quem será o próximo da equipe.

A mim, pessoalmente, me entregaram o bastão vários autores, que facilmente me ultrapassam em mérito e valor. O primeiro deles fui Lobato. Lobato passou o bastão para Salinger, Salinger me fez voltar um pouco atrás e passou o bastão para Dostoiévski e logo para Tolstoi. Não sei como, mas José Mauro de Vasconcelos rendeu os russos. Todos foram sucedidos por Machado. Depois, numa ordem de caos, vieram Babel, Singer, Calvino, Borges, Cervantes, Llosa, García Márquez, Flaubert, Proust. E Clarice Lispector, que invadiu a pista com fôlego de titã e me disse que eu podia seguir.

A linha de chegada, felizmente, é imprecisa, vaga e nebulosa. Pior: não terei sequer a alegria de arremeter o corpo, braços aos céus, dando graças pela fita rompida. Minha esperança, muito sincera, é transcender, para correr junto daqueles que virão depois.

E eu, que sou a posteridade daqueles que vieram antes de mim, que eu seja leve companheira, como são para mim os amados que carrego.

Marcos Siscar

Tenho a maior dificuldade pra falar das chamadas influências. É curioso como essa é uma questão recorrente, quando se fala sobre literatura, e pra qual a gente acaba padronizando uma resposta, do tipo: “sou leitor da poesia moderna européia, brasileira, americana”. Não que as influências não existam, não sejam fortes, mas a lista nunca está terminada. O tipo de relação que um escritor tem com a tradição é justamente o da leitura ampla e o da descoberta.

Li e leio os “clássicos”, mas também leio os contemporâneos, não só por profissão. E não sei direito se o poeta de cabeceira, aquele do qual comprei a obra completa, em papel bíblia, me influencia por vontade de imitação ou contraposição. Ou seja, não quero fazer poesia como Rimbaud, como Pessoa, como Pound, Drummond, Montale, Deguy embora eles certamente estejam presentes no que eu escrevo. A minha tarefa, como poeta, me parece, é de deglutir (como diziam os antropófagos), deglutir a linguagem deles e ficar atento às sínteses que consigo produzir.

Mas, no fundo, a influência mais importante, que me preocupa, é a influência, digamos, inconfessável, aquela que acabou ficando como um fiapo no meio dos dentes do antropófago, aquela influência que eu não consigo mais reconhecer no que escrevo.

Outro dia, certa amiga me disse que um dos meus poemas tinha muito de tal autor, o que me surpreendeu enormemente. Fiquei incomodado, fui reler o poema, fui reler o outro poeta, tentando entender o esquecimento, não pela vaidade de ser absolutamente original, o que aliás é uma ilusão, mas porque naquele fiapo, naquele resto de leitura alguma coisa não tinha sido digerida, traduzida.

Por isso, não tenho reverência pelos poetas que li, nem acredito que devo ir além deles. Acho que minha tarefa é “traduzi-los” pra minha língua.

Mia Couto

Tenho imensa pena de não estar presente na cerimónia de entrega do prémio Portugal Telecom.

Lamento não partilhar com os meus colegas escritores um momento que é de festa para todos nós, africanos de língua portuguesa, brasileiros e portugueses.

Todos sabemos que, no domínio da escrita, não há vencedores, nem lugar para competição.

Somos vencedores apenas na luta interior que faz com que do vazio do papel surja uma história, um poema, uma palavra grávida.

Esse momento de criação é o maior prémio.

E nesse momento perdemos fronteira, somos estuário de muitos rios, escrevemos como infinitas mãos.

Essas mãos são de um corpo que se chama Terra, que se chama gente, que se chama sonho.

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Estes foram os livros finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2007: