A rua sem nome

Ana Teresa Pereira

Oceanos publica versão inédita do conto em que a escritora portuguesa Ana Teresa Pereira – vencedora do Oceanos 2017 com o romance Karen –  utiliza procedimentos metaliterários baseados em Borges, conforme explica em texto introdutório sobre suas narrativas fantásticas

Os primeiros contos fantásticos que escrevi foram “A rua sem nome” e “Os monstros”.

Em “A rua sem nome”, tentei entrar no universo de Jorge Luis Borges: o escritor, a biblioteca, o duplo, o xadrez, o labirinto. O mundo como um sonho: “um sonho dentro de um sonho” (Poe); “cada porta cede dentro de mim” (Rilke); “a realidade começou a ceder” (Borges). Num texto tão curto, uma palavra, uma pequena frase, podem transformar tudo, revelar um sentido oculto. Talvez por isso, reescrevi o conto muitas vezes (a primeira versão está em A Última História, 1991.) Nesta versão, surgiram elementos novos: a sugestão de asas, os monstros dos velhos filmes a preto e branco…

A minha relação com “Os monstros” é obsessiva. No princípio da história, uma rapariga perde-se no nevoeiro. Não há ninguém nas ruas, não passam automóveis. Inesperadamente, vê uma loja aberta. Na montra, entre cordas e objectos náuticos, está um anel com uma pedra azul. Ela verifica o dinheiro que tem na bolsa e entra na loja. Reescrevi esta história inúmeras vezes; frequentemente a porta aberta é a de uma livraria, de um alfarrabista, numa das versões estamos dentro de um filme a preto e branco. E sei que continuarei a reescrevê-la, até descobrir o que se esconde na penumbra da loja.

*

Ryan era menos real do que as personagens dos meus livros: uma simples assinatura num cheque, que pagava as mensalidades do colégio interno. Aos onze anos, disseram-me que era o meu único parente vivo. Nessa altura, eu era um rapaz franzino e cobarde. Mergulhava nos livros durante dias inteiros, evitava as pessoas e caminhava sempre junto às paredes.

Aos dezoito anos, fui estudar para Londres. Aluguei um quarto enorme, quase sem móveis, no último andar de um prédio decrépito, de corredores sombrios onde por vezes se insinuava o nevoeiro. O cheque de Ryan continuava a chegar todos os meses.

Comecei a dividir os meus dias entre as bibliotecas e os bares. Nesses quentes universos dentro do universo, os primeiros povoados de mistério, os segundos sem mistério algum, sentia-me seguro. Nos livros encontrava uma infinidade de vidas paralelas que me dispensavam de inventar uma para mim; no álcool dimensões desconhecidas de mim mesmo e da realidade.

Muitas vezes tive de fugir do pesadelo das ruas, da ameaça latejante das coisas e dos homens, e entrei ofegante num dos meus refúgios. Ficava lá durante horas, aguardando que o perigo passasse.

Entre bares e bibliotecas e visitas cada vez mais raras à universidade, passaram-se alguns anos. Num impossível entardecer de Outono, recebi pela primeira vez uma carta de Ryan. Estava em Londres e pensava visitar-me.

Ryan era incrivelmente velho. Alto, escuro e enigmático. Usava uma capa preta, que por algum motivo me fez pensar em asas escondidas. Quando chegou ao meu quarto, eu lia um conto de Edgar Allan Poe, com uma garrafa de gin por companhia. Não tinha grande coisa a dizer-me. Decidira suspender os cheques. A partir daquele momento eu ficava por minha conta.

Foi então que a ideia começou a formar-se na minha mente. Ele era velho, tão velho e inútil, eu era novo e tinha muitos bares para descobrir, muitos livros para ler. Quando descíamos as escadas do edifício, entre as paredes bolorentas, empurrei-o com as duas mãos. (Mais tarde lamentei ter mostrado tão pouca imaginação; afinal, eu sou um leitor de Poe…) Rolou pelos degraus sem um gemido e bateu com a cabeça no chão de pedra. Ficou ali, inerte e longínquo, enquanto eu descia vagarosamente.

Ninguém suspeitou de nada. Como único parente vivo, herdei a sua fortuna. Ryan habitava em Z, uma povoação a alguns quilómetros de Londres, onde havia um quarteirão que ele próprio mandara construir muitos anos atrás. Tinha um secretário, um tal Patrick, com o qual me limitei a falar pelo telefone.

Deixei Londres e durante sete anos percorri o mundo. Verifiquei que as bibliotecas e os bares são parecidos em qualquer parte da terra. E nem os homens mudam muito. Em qualquer parte há livros que não chegaremos a ler, homens que serão sempre desconhecidos. Em qualquer parte a realidade é uma ficção.

E todas as noites, ao adormecer, encontrava-me sozinho num labirinto onde o silêncio era total. Durante anos caminhei por longos e estreitos corredores, todos iguais, com a sensação terrível de voltar sempre ao mesmo sítio.

Ao fim de sete anos regressei a Londres e então resolvi visitar Z.

 

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Quando desci do comboio, a plataforma estava deserta e uma noite húmida roçava desagradavelmente as coisas. Um pouco mais longe, a planície derramava-se em nevoeiro.

Dirigi-me ao centro da povoação e entrei no primeiro bar que descobri. Era pequeno e cheio de fumo. Um desconhecido de olhos cinzentos, com quem tomei um copo, deu-me indicações para o trajecto. Numa praça com uma torre em ruínas, um cachorro negro tentou morder-me.

À medida que me aproximava do lugar indicado, as ruas ficavam mais desertas e havia menos bares. As casas começavam a ter um ar desabitado.

Cheguei finalmente ao número sete. Era uma casa de pedra escura, um pouco maior do que as outras. Havia uma luz acesa no rés-do-chão, mas o efeito não era acolhedor; a claridade baça parecia destinada a afastar os visitantes.

Patrick esperava-me. Era tão alto como Ryan e quase idêntico a ele, embora fisicamente se parecessem muito pouco. Ao mesmo tempo também se parecia comigo em algo que só depois compreendi: era um solitário.

Atravessámos a galeria principal. Nas paredes havia retratos improváveis de pessoas que nunca existiram. Entrámos na biblioteca e Patrick ofereceu-me um cálice de xerez.

A biblioteca era sombria e inesgotável. Quase tropecei numa pequena mesa com um jogo de xadrez interrompido. Aproximei-me de uma das estantes. Kafka, Borges, Poe. Nos dias seguintes, iria verificar que estavam ali todos os meus escritores.

Junto à lareira havia uma secretária muito antiga e ao fundo algo que me sobressaltou: um enorme espelho.

Sempre detestei espelhos. Como os animais, evito olhar para eles. A imagem que reflectem sempre me pareceu a de um outro. Um monstro que, ao contrário dos monstros nos velhos filmes a preto e branco, não salva ninguém.

Fiz um esforço para me libertar da sensação de vertigem. Patrick sentara-se perto da lareira e saboreava o xerez, absorto nos seus pensamentos.

– Ryan devia gostar muito de livros.

– Mr. Ryan odiava livros.

Tive de o interrogar, até obter uma história. Ryan era um escritor falhado. Consagrara muitos anos da sua vida a escrever um livro e por fim desistira. Era um livro sobre uma rua sem nome. Uma rua como as outras, nas entranhas de uma povoação, entre casas habitadas; mas ninguém conhecia a sua existência.

A ideia fascinou-me durante algum tempo. Lembrava-me um dos primeiros romances policiais de John Dickson Carr: um homem assassinado, um automóvel conduzido por um fantasma, um quarto que cheirava a incenso, a sombra de uma guilhotina, uma Londres de pesadelo.

Dei com os olhos em Patrick que me observava, e compreendi que ele sabia. Por um instante, olhámo-nos quase com cumplicidade.

Nessa noite, dormi no quarto de Ryan. Sonhei que caminhava pelo meu infindável labirinto. Mas algo de novo aconteceu. Ao dobrar uma esquina igual às outras, vi ao fundo do corredor uma abertura de onde vinha uma claridade esbranquiçada. Nesse momento, acordei. Era já manhã, e senti uma mistura de leveza e felicidade que nunca sentira antes.

Gostava da casa e resolvi passar ali os próximos, talvez todos os anos da minha vida.

 

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Comecei a passar as tardes na biblioteca. Mas, inexplicavelmente, sentia-me inseguro lá dentro. As bibliotecas sempre haviam representado a segurança, o centro do mundo. Aquela respirava ameaça.

Foi na sétima noite, sentado à secretária, lendo Do Assassínio como Uma das Belas Artes de Thomas de Quincey, que percebi tudo. Era o espelho. Era o maldito espelho que me assombrava o tempo todo e aquela imagem não era eu, não podia ser eu. Fechei o livro e folheei algumas páginas manuscritas que encontrara numa gaveta. A letra era quase indecifrável; no princípio da segunda página, parecera-me ler “a murder of crows”.

Nem corvos nem tigres me fariam esquecer a presença do outro no espelho. Acabei a bebida que tinha no copo. Levantei-me calmamente e atirei a cadeira contra o espelho. Esmaguei com os sapatos os mil pequenos espelhos que se espalhavam pelo tapete.

Estava tão concentrado na minha tarefa, que demorei a descobrir a alavanca que saía da parede de pedra. Agarrei-a e, após algumas tentativas, o mecanismo funcionou. Apareceu uma abertura com o tamanho de um homem.

O ar da noite agrediu-me a cara. Lá fora havia frio e luar. Cruzei o umbral e achei-me ao ar livre. Atrás de mim a parede moveu-se, e quando me voltei a abertura desaparecera.

O luar deixava-me ver bem a rua. Era estreita, não passava ninguém, e o silêncio pesava.

Andei alguns metros e apercebi-me de algo estranho. Havia casas de ambos os lados, paredes de pedra cinzenta. Mas… não se via uma porta. Nem uma janela.

Um pouco mais à frente, a rua dividia-se em duas. Segui pela da esquerda e era igual à outra. Nem portas nem janelas. O céu parecia demasiado baixo, demasiado próximo. Não se viam estrelas.

Apertei o passo; talvez a rua desembocasse numa praça qualquer, com candeeiros, um barzinho acolhedor, ou pelo menos um dos inevitáveis solitários da noite: um cachorro vagabundo, um bêbado falando sozinho, uma prostituta de pernas nuas… Mas terminava nas traseiras de uma casa. Uma parede cinzenta e triste, e nem se via encostada a ela uma lata de lixo.

Voltei atrás e na rua de antes segui em frente. Havia uma ruela à esquerda, que mergulhava na sombra. Segui por aí e em breve divisei uma parede que me cerrava o caminho. Pensei vagamente que estava num labirinto. Dei meia volta. O silêncio era terrível.

E então compreendi tudo. Ryan escrevera o seu livro. Escrevera-o com pedra e eu era a sua única personagem. Estava na rua sem nome. Na rua que ninguém conhecia.

Senti vontade de gritar mas percebi que era inútil. Mesmo que alguém ouvisse numa das casas, não passaria de um grito distante saindo de uma parede de pedra.

Pela noite dentro, ganhei a certeza de que o lugar por onde entrara era também a única saída. Um labirinto sem saída. A abertura desaparecera, lembrava-me bem. O mecanismo trabalhara por si. Ou talvez Patrick… Claro, Patrick. Imaginei-o sentado na biblioteca, o cálice de xerez na mão, olhando absorto o crepitar das chamas na lareira.

Ryan vingou-se. Voltei ao labirinto dos meus pesadelos.

Já não estou embriagado. Sinto-me quase feliz. Espero calmamente que amanheça (se é que amanhece aqui). Então poderei ver com nitidez as paredes da minha prisão. Para sempre.