Achar o mapa do tesouro com o Prémio Oceanos, por Isabel Lucas

A conferencista Selma Caetano e o debatedor Simão Valente

Mapear a literatura feita nos países de íngua portuguesa e trabalhar para a sua internacionalização contemplando a diversidade de que é feita. Eis, em suma, a palestra de Selma Caetano, curadora do prémio Oceanos, no último dia do festival Literatura-Mundo do Sal.

Formar leitores, lutar pela participação dos governos na promoção da cultura, exigir independência, saber escutar e ajustar os discursos e as acções às cambiantes inerentes a uma cultura em movimento. Estas as tónicas da conferência de Selma Caetano na segunda edição do Festival Literatura-Mundo que terminou no domingo, 24 de Junho, na Ilha do Sal.

Sob o tema “As diversas estratégias de internacionalização dos escritores e das suas obras”, a curadora do Prémio Oceanos fez uma análise do percurso dos festivais literários no Brasil, desde Paraty, e de como têm sido um motor de internacionalização de escritores, sublinhado uma característica que esses modelos — os festivais — têm revelado:  “Se as identidades, que eram definitivas, passam a ser construídas, tornam-se temporárias, se uma mesma pessoa, um grupo, uma sociedade podem ter mais de uma identidade, precisamos criar ações culturais que possam mudar sempre seu ponto de vista. Que possam criar uma nova sinergia entre uma cultura que se renova mais fácil e rapidamente e outras culturas mais estruturas. E hoje a cultura do Brasil exatamente por ser cambiante, flutuante, pode servir de locomotiva para um real e efetivo outro mundo.”

Indo à sua experiência pessoal, Selma Caetano referiu que o seu interesse pela literatura esteve associado à noção de identidade. “Chego à adolescência pensando que resistir — palavra importante na minha formação — era olhar para minha herança afro-brasileira.” E foi então que olhou para África e, entre outros, descobriu a literatura de Luandino Vieira. “Conheci Luuanda, do luso-angolano Luandino Vieira”, conta, salientando que “nem sabia o que era literatura comparada”. Eram os anos 60, ela ainda muito jovem, mas sabendo que “a temática da literatura de Luandino, que escrevia sobre os musseques angolanos, se aproximava muito daquela temática dos brasileiros que lia: as crueldades das desigualdades sociais. Essa literatura, cujo tema era o Brasil e os países africanos, era minha preferida.”
Apercebeu-se então, muito cedo, da “complexidade de conceitos como regionalismo, nacionalismo ou universalismo” e leu um texto que a ajudou a perceber melhor o tema. Nada mais do que  “Notícia da atual Literatura Brasileira – Instinto de Nacionalidade”, de Machado de Assis e publicado em 1873. Nele, lê-se:
“Interrogando a vida brasileira, prosadores e poetas acharão ali farto manancial de inspiração e irão dando fisionomia própria ao pensamento nacional. Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga, não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.  (…)
O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.

Como referiu Selma Caetano, nesse texto Machado “evoca as ambiguidades da palavra nacionalidade. Não há 5 de Julho (para Cabo Verde); não há 25 de Junho (para Moçambique); nem 11 de Novembro (para Angola); nem 7 de setembro (para Brasil) que possa fabricar esse sentimento íntimo. Ele é a dicção que está no corpo e na mente do escritor, antes de qualquer visão de mundo.  As obras literárias nunca estão dissociadas daqueles que as concebem. Por mais fantasiosas que elas possam ser, estarão sempre ligadas ao seu autor e à sua cultura.” E sublinha uma palavra: independente. “As literaturas primeiro se firmam como independentes, para depois serem traduzidas, conhecidas em todos os lugares do mundo. É assim que o caráter ‘regional’, ‘local’ de uma literatura concretiza a sua índole universal e dialoga com os leitores do mundo”, constatou Selma Caetano chamando à conversa um dos escritores homenageados no festival do Sal, Luis Borges, mais precisamente num texto de 1956 que a curadora do Oceanos considera estar em diálogo com o texto de Machado de Assis. “Borges, assim como Machado, aponta exemplos negativos da nacionalidade e sempre tratados, nos dois casos, com muito humor. Em um desses exemplos, Borges cita um crítico que questiona a autenticidade de O Alcorão pois na obra não há camelos. E, provocativo, diz que a ausência de camelos prova a autenticidade da obra e do autor. Porque o autor não tinha como saber que os camelos eram especialidades árabes e não tinha porque distingui-los em seu texto. Mas um falsário, um nacionalista, iria preencher as páginas do Alcorão de caravanas de camelos árabes.” E continuou: “Em países como os nossos, periféricos, multiculturais e multilíngues, os escritores nascem com múltiplas nacionalidades, não precisam reivindicar. Nossas referências não veem apenas de nosso mundo, mas de outros mundos, e essa diversidade enriquece a literatura tanto no aspecto literário quanto no aspecto humano pois deixa o escritor menos propenso aos estereótipos e preconceitos, que tornam o mundo tão perigoso.”

Ao longo da conversa, pontuada com exemplos dos vários países onde se fala a língua portuguesa, Selma Caetano chama a atenção para a necessidade de sempre que se falar em estratégias para ganhar o mercado internacional ser necessário analisar o que acontece “em nossos países periféricos, não apenas no âmbito da literatura”, bem como um alerta: a descontinuadas de muitos projectos culturais por razões que não têm a ver com a sua qualidade ou amplitude. E apelou à continuidade do Oceanos, cuja ambição é a de congregar a diversidade e o diálogo entre quem trabalha a língua portuguesa, criando cruzamentos que permitam ajudar à sua universalidade. “Mais do que premiar escritores, o Oceanos pretende mapear a atual literatura contemporânea em língua portuguesa”, afirmou, acrescentando: “A internacionalização do projeto não depende apenas do Brasil. Depende de parcerias, de vontade política e da determinação de todos que desejam ter a sua literatura representada globalmente, quer seja com mil obras, como o Brasil neste ano de 2018; quer seja com uma obra, como o Timor Leste, pois esse projeto é de todos os falantes de português e para todos os falantes de português do mundo. Não existe mapa do tesouro para que dê certo. Existe determinação, persistência e muito trabalho.” E terminou citando, a este propósito, Paulo Leminski. “Quem me dera um mapa do tesouro que me leve a um velho baú cheio de mapas do tesouro”.

 

Confira a cobertura da conferência feita pela TCV, de Cabo Verde.