Atualidade de “Os sertões”, de Euclides da Cunha, é debatida na Flip

Walnice Nogueira Galvão durante a abertura da Flip | Foto: Walter Craveiro

Como a história da Guerra de Canudos, relatada por Euclides da Cunha em Os sertões, reflete a história do Brasil? Esta foi a pergunta que grande parte da programação da 17ª Flip – Festa do Livro de Paraty procurou responder.

No dia 10 de julho, durante a cerimônia de abertura no Auditório da Matriz, Walnice Nogueira Galvão estabeleceu relações entre a obra e temas pungentes, como a violência do Exército Brasileiro e fake news que, de acordo com a crítica literária, já eram prática comum da imprensa no final do século XIX para descaracterização da comunidade liderada por Antônio Conselheiro.

A nação promove uma guerra sem quartel contra os pobres, como o genocídio de jovens negros na periferia de São Paulo, a militarização das favelas no Rio, e os desastres de Mariana e Brumadinho, por exemplo”, disse. “Sempre me perguntam fora do Brasil o que tem a ver Os sertões com o movimento dos sem-terra. Tem a ver com a falta da reforma agrária, a iniquidade da distribuição de terras no Brasil, a iniquidade geral da distribuição de tudo no Brasil”.

Em paralelo ao debate em torno de Canudos, Walnice percorreu sua própria trajetória intelectual, dedicada em grande parte ao estudo e interpretação da obra de Euclides da Cunha, autor homenageado desta edição do festival literário. Ela é professora emérita da USP e, dentre seus mais de quarenta livros publicados, doze tratam da obra do autor. “Enquanto o processo de modernização capitalista não terminar, Os sertões tem que ser lido todos os dias para entender o que acontece com os pobres no país”, afirmou.

Wellington de Mello e Isabel Lucas na Casa Paratodxs

Também a jornalista portuguesa e curadora do Oceanos Isabel Lucas estabeleceu paralelos entre o território descrito por Euclides da Cunha e o sertão dos dias de hoje – relações que nos permitem compreender melhor o Brasil atual. Em seu ensaio Os Sertões, crônica dos dizimados pela república, disponível no site da revista Suplemento Pernambuco, Isabel relata sua experiência de viagem pelo interior do sertão baiano:

O rosto de Maria do Botão tem os mesmos sulcos do terreno à sua volta sempre que a seca se prolonga. Profundos, traçados por um sol sem dó e marcadores de um carácter sem outro remédio a não ser resistir com a perseverança dos que têm toda a calma porque conhecem todo o sofrimento. Os traços do rosto de Maria Botão, como os do solo sertanejo, são os traços da fatalidade. E o rosto dela é o mapa de uma vida num território onde o tempo parece não passar a não ser pelas sucessivas contagens de vivos e mortos. Em tudo o resto tem-se cristalizado”, escreveu sobre a neta de um sobreviventes da guerra.

O texto faz parte do projeto Viagem ao País do Futuro, um roteiro de viagem pelo território brasileiro através da literatura nacional, apresentado ao público na Casa Paratodxs, na sexta-feira, por Isabel e Wellington de Melo, editor da Cepe — Companhia Editora de Pernambuco. Durante o período de um ano, Isabel percorrerá locais onde são ambientadas obras clássicas, “devido à importância da memória identitária desses livros para o Brasil”, e também livros de autores contemporâneos. “Quero chegar a pessoas que sejam novas em Portugal e também aqui”, afirmou.

As reportagens têm como matéria a experiência da escritora em suas viagens, pesquisa bibliográfica e entrevistas. “O que se vê é muito diferente do que se lê. (…) É preciso fazer perguntas que nos ajudem a ficar menos conformados com o que existe no mundo”, disse. Ao final do projeto, os textos serão reunidos em livro a ser publicado pela Cepe, com previsão de lançamento para 2020.

Mbate Pedro, José Luís Peixoto, Selma Caetano, Ana Cunha e Alice Penna e Costa assistem à mesa Viagem ao País do Futuro na Casa Paratodxs

Leia abaixo mais um trecho da primeira reportagem da série Viagem ao país do futuro:

E tanto chove como faz sol, uma chuva que faz nascer arco-íris ao longo das estradas. Perto de Monte Santo, ‘o lugar lendário’ de que fala Euclides, símbolo da religiosidade sertaneja, um bando de urubus passando voando. São desenhos a preto num céu de cinza. Poucos metros depois desfaz-se o enigma acerca da sua presença. Debicam o cadáver de uma vaca, quase inteiro ainda, que jaz à beira da estrada. Não morreu de fome, está gorda, mas remete para a abertura de Deus e o Diabo na terra do sol, do realizador Glauber Rocha, um dos que mais filmou o Sertão e a sua gente.”

Ismail Xavier | Foto: Walter Craveiro

A filmografia de Glauber Rocha, abordada por Isabel, esteve em pauta também no sábado (13), na mesa do Auditório da Matriz com o professor e teórico do cinema Ismail Xavier e o cineasta português Miguel Gomes.

Ismail destacou os pontos de contato entre a o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), do diretor baiano, e o livro Os sertões. “Neste Brasil dos sonhos desfeitos, (…) precisamos de um novo Glauber que nos traga a profecia de mudança novamente”, disse.

Miguel Gomes | Foto: Walter Craveiro

Miguel, que irá filmar adaptação de Os sertões no ano que vem — obra batizada de Selvejaria — falou sobre o processo de realização de seu projeto. “Serão dois anos trabalhando no roteiro: no primeiro, desenvolvi com outros três roteiristas nossa versão do livro; o segundo vai reunir minha experiência passada na cidade, a partir de 2020″, explicou.

Para ele, a obra de Euclides da Cunha “trata-se de uma das mais poderosas prosas da história da língua portuguesa”. “Os sertões passa do racional ao irracional. (…) Não há a neutralidade esperada. Ele parte de uma estrutura racional, mas lá dentro é irracional e caprichoso”. Em paralelo, o cineasta falou de sua própria trajetória no cinema. Miguel é diretor de filmes Tabu (2012) e as três partes de As Mil e Uma Noites (2015), entre outras obras cinematográficas.

Isabel Lucas e Miguel Gomes na Casa Edições Sesc | Foto: Edmar Júnior/Sesc

O diretor português esteve também presente na última mesa do Oceanos na Flip, na Casa Edições Sesc, junto a Isabel Lucas. Eles compartilharam com o público suas experiências em Canudos e trouxeram diferentes aproximações da obra Os sertões. Ela, com bagagem do jornalismo e da literatura; ele, com o olha do cinema.

Os sertões é uma peça chave para compreender a história do Brasil”, afirmou Miguel. O cineasta explicou como o ressurgimento de um sentimento de polarização política reflete a atualidade da obra em dimensões globais. “A flutuação e a ambiguidade (políticas) tem a ver com Euclides da Cunha. Ele incorporou outras posições”, explicou, ao se deter à perspectiva ideológica através da qual a Guerra de Canudos é tratada pelo autor desconstruída no decorrer da obra.

Isabel relatou ao público suas percepções durante a viagem ao interior do sertão baiano. De acordo com a jornalista, a imagem de Antônio Conselheiro e vestígios da Guerra de Canudos continuam muito presentes na cidade. “Não é possível destruir a memória de Canudos”, disse, ao tratar das tentativas de apagamento da comunidade local durante o último século.

Em Canudos, mais de 120 anos depois da sua morte, António Conselheiro é visto como um mártir pela libertação de um povo, uma libertação que tarda em acontecer, e contribui para a génese de um mito messiânico que resiste e é integrador do que se pode chamar identidade brasileira (…)”, escreveu.

Além das mesas de discussão acima, houve outras dezenas de mesas na programação oficial e paralela da Flip voltada ao entendimento de obra de Euclides da Cunha na atualidade. A abordagem política do Autor Homenageado foi eficaz para engajamento dos leitores quase 120 anos depois da primeira edição do livro. Como afirmou Isabel, “em Canudos as conversas acabam quase sempre na política”.