Carola Saavedra: “Para mim, o grande medo é o da identidade”

A escritora brasileira Carola Saavedra.

Quem sou eu?” De acordo com a escritora brasileira Carola Saavedra, essa é a pergunta que as personagens de Com armas sonolentas (Companhia das Letras, 2018), sua obra mais recente e livro semifinalista do Oceanos 2019, buscam responder ao longo de romance. “A sociedade dá certas regras de como você vive, como você ama. Para mim, a grande pergunta é: será que isso que eu vivi, isso que eu senti, é realmente o que eu queria ter vivido, realmente quem eu sou, ou será que é o que a sociedade me disse que eu deveria fazer? Minhas personagens estão se perguntando isso o tempo todo”, afirmou.

Saavedra esteve FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, no dia 12 de outubro, para conversa com a jornalista e curadora do Oceanos Isabel Lucas. O diálogo foi pautado sobretudo pelos temas do medo, um dos motes desta edição do evento, e do feminino.

Sempre tenho muito cuidado em não definir o feminino de uma forma essencialista, quer dizer, como se todas as mulheres fossem iguais ou se sentissem iguais. Há, ao meu ver, o medo do que é ser mulher na sociedade: o medo da violência, de ser silenciada, de não ter trabalho, de estar sozinha. Há medos em comum, e que passam pela solidão. Uma mulher sozinha é vista como uma mulher invisível. Talvez isso seja o que permeia esse medo feminino”, sintetizou a autora.

Questionada sobre o título Com armas sonolentas, Saavedra explicou tratar-se de um verso da poeta mexicana Sor Juana Inés de la Cruz. “É a ideia de que existem outras formas de lidar com a vida ou de combate – pensando também em um combate político – que não passam pela razão cartesiana que nos guia, mas pelo sonho, pelo onírico, pelo inesperado, enfim, por outras formas de pensamento muito ligados a uma lógica latinoamericana, indígena, afrobrasileira. São formas de olhar para o mundo que não estão calcadas no olhar europeu do que é a verdade, quem sou eu, o que eu acesso”, disse. “Eu queria pensar a história da América Latina por aquilo que não foi narrado, que não foi dito. A realidade não dava conta deste livro.”

Sobre a autora

Carola Saavedra nasceu em Santiago, Chile. Mudou-se para o Brasil aos três anos de idade. Publicou cinco romances, entre eles Toda terça, Flores azuis (ambos editados no Brasil pela Companhia das Letras e, em Portugal, pela Plátano Editora) e Com armas sonolentas, editado também pela Companhia das Letras.

Isabel Lucas e Carola Saavedra no Festival Internacional de Óbidos, em Portugal.