Comemoração dos livros vencedores do Oceanos 2019

Djaimilia Pereira de Almeida, Dulce Maria Cardoso e Nara Vidal. | Foto: Arlindo Homem

Djaimilia Pereira de Almeida, Dulce Maria Cardoso e Nara Vidal, as três vencedoras do Oceanos 2019, reuniram-se na Torre do Tombo, em Lisboa, para uma conversa sobre suas obras premiadas: Luanda, Lisboa, Paraíso; Eliete e Sorte, respectivamente.

Com a casa lotada, o encontro, que aconteceu no dia 13 de fevereiro de 2020, celebrou também a parceria, a partir de 2020, do Oceanos com a DGLAB – Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, que coordena as políticas públicas integradas do livro, das bibliotecas e da leitura em Portugal.

Manuel Frias Martins e Djaimilia Pereira de Almeida. | Foto: Arlindo Homem

Djaimilia conversou com o crítico literário e jurado do Oceanos Manuel Frias Martins. Para ela, o romance Luanda, Lisboa, Paraíso (Companhia das Letras Portugal e Brasil) busca refletir como uma doença transforma as relações humanas no contexto familiar e social. “Interessava-me a maneira como a doença afeta as relações de poder entre as pessoas, como gera assimetrias onde antes não havia assimetrias. Esse tipo de ondulação de poder em que não se percebe bem quem cuida, quem é cuidado”, disse.

Manuel observou que, embora a autora tenha declarado que não parte de questões sociais e políticas para escrever, “todo o conjunto de personagens de Luanda, Lisboa, Paraíso vive sob uma espécie de subalternidade em relação à História”. “São homens que não têm território, não têm voz, vivem em um silêncio permanente em relação aos poderes hegemônicos da sociedade”, concluiu o crítico.

Eliane Robert Moraes e Dulce Maria Cardoso. | Foto: Arlindo Homem

Dulce, em conversa com a professora, crítica literária e jurada do Oceanos Eliane Robert Moraes disse que o desafio de Eliete (Tinta-da-China) era construir uma personagem mediana numa vida mediana. Interessava-lhe pensar como a tecnologia muda uma vida em termos privados, nomeadamente nas relações de sexo.

De acordo com Eliane, Eliete é romance extraordinário porque, “em sendo absolutamente feminino, não se trata de um livro que cede à armadilha da identidade feminina, ao essencialismo”. “Pelo contrário, é uma obra em gerúndio na qual acompanhamos não um ser feminino, mas várias mulheres sendo”, afirmou a professora.

Nas palavras de Dulce, é um livro em que se corre muitos riscos, porque a esta altura ainda está quase tudo por pensar: “Eu costumo dizer que estamos no olho do furacão: está tudo a mudar à nossa volta, e a uma velocidade vertiginosa, mas, por enquanto, nós ainda estamos no centro a pensar que podemos continuar com a vida como sempre a conhecemos.”

Daniel Jonas e Nara Vidal. | Foto: Arlindo Homem

Nara Vidal conversou com o poeta e jurado do Oceanos Daniel Jonas sobre Sorte (Moinhos), “uma novela breve, densa e certeira sobre mulheres que nunca tiveram o direito de dizer não”, segundo ele.

Para a autora, “o livro abrange a opressão católica, a opressão da mulher, do Brasil, e tudo se relaciona com a ‘Casa da Vergonha’, título da edição holandesa”.

De acordo com Daniel, trata-se de uma obra que “impõe a nós leitores um sentimento de culpa permanente, de medo, de terror”. “O tom em que se passa toda a narrativa em nada abona a nossa existência humana”, concluiu.

O público se reuniu na Torre do Tombo, em Lisboa. | Foto: Arlindo Homem