Conversas do fim do mundo

Marcelo Panguana @José dos Remédios

Leia a seguir entrevista concedida ao prêmio Oceanos pelo escritor e jornalista moçambicano Marcelo Panguana, autor de Os Peregrinos da Palavra, livro publicado pela editora Alcance, de Maputo, no qual o autor faz um panorama da literatura contemporânea de seu país por meio de entrevistas com alguns de seus principais autores

 

OCEANOS Aproveitando o fato de seu livro começar por uma entrevista com Paulina Chiziane, qual o lugar ocupado pelas mulheres na literatura moçambicana?

MARCELO PANGUANA Não me sinto confortável quando sou solicitado a falar da literatura moçambicana nesses termos. Talvez começasse por dizer que a nossa escrita não tem muitos anos de vida, e que o nosso sistema de governação não privilegiou nas suas políticas uma política cultural que fosse capaz de ser um parceiro válido do governo, ao lado de outros esforços que se faziam para construir a nação. Marginalizou-se o escritor. Tanto o homem como a mulher. Não se privilegiou nenhum género. Por conseguinte, agora que a literatura moçambicana está a crescer, é necessário que se diga que se deveu ao esforço de mulheres e homens numa estratégia comum. Julgo que em termos literários a mulher está a ocupar o mesmo lugar que o homem. O lugar que é consentâneo com a sua estatura literária. Não como mulher, mas como escritora. Na arte, e penso que isso acontece em outras áreas, as pessoas se afirmam em função da sua qualidade. É ela que os retira do anonimato e os torna visíveis. Perenes. O resto não passa de simples discursos que apenas servem para distrair os incautos.

Mas não posso deixar de dizer que, em Moçambique, estamos a criar uma literatura pujante, a fazer coisas boas, muitas delas através de mulheres como a Paulina Chiziane, com a sua escrita exuberante e que recupera todo um substracto cultural que muito enriquece a sua obra; a Sónia Sultuane, com experimentações que misturam o grafismo e a poesia; uma Lília Momplé, bastante discreta e de aparições espaçadas que não chegam a diminuir a sua importância. Surgiu a Hirondina Joshua, uma poetisa com muito futuro, com o seu livro de estreia chamado Os ângulos da casa, que levou Mia Couto a dizer que Hirondina Joshua surgiu como uma claridade lunar até se impor, não já como uma promessa futura, mas como uma voz presente e segura no panorama das letras moçambicanas. Existem ainda outras vozes femininas cujo tempo poderá, creio, consolidar a sua escrita, refiro-me a uma Isabel Ferrão, Rinkel, Emmy Xis, Tânia Tomé, Awaji Malunga, Ginger Andra, Cri Essência, todas elas fazendo parte dessa enorme família de escritores. Mulheres? Sim. Mas sobretudo escritores!

OCEANOS Com base nessas entrevistas é possível identificar um eixo temático, estilístico dominante na literatura do país (como africanidade, história, política, memória, costumes)?

MARCELO PANGUANA O que pretendi, desde o princípio, foi pegar esse outro lado do artista que permanece desconhecido, dar a conhecer os obstáculos pelos quais passa um escritor moçambicano num país onde tudo está por se construir; falar sobre as visões que tem da sociedade onde vive, as suas relações com o poder, a criação da moçambicanidade literária, essas coisas todas. É verdade que o ponto de partida, o núcleo através do qual a conversa se sustenta, é a literatura, mas as conversas são, sobretudo, viagens que nos levaram a muitos universos. O eixo temático das entrevistas, que prefiro chamar de conversas do fim do mundo, é toda esta experiência de se viver num país em construção, com toda uma série de desafios que o escritor deve enfrentar. As situações quase surrealistas que observamos servem de legenda para todo o exercício de escrita. Inspiramo-nos no povo. Nos nossos políticos. Nas nossas desgraças. Nas imensas alegrias que Moçambique as vezes nos oferece.

A africanidade? Ela é uma realidade que está subjacente em todos nós. Não precisamos de reivindicá-la. O escritor nigeriano Wole Soyinka costuma dizer que um tigre não precisa de reivindicar a sua tigritude, porque já o é. Nós não precisamos de nos esforçar a ser aquilo que já somos. Por outro lado, a história e a memória, são inseparáveis na nossa literatura, porque ninguém pode deixar de reconhecer que é preciso fixar o nosso percurso como povo até os nossos tempos. Infelizmente, ao longo dos tempos, não fomos capazes de fixar em livros a nossa história, ela fixou-se nas mentes, muitas coisas perderam-se. Como disse Claude Lévi-Strauss, houve povos e raças que se desenvolveram em sentidos contrários; e os nossos povos, no seu processo de desenvolvimento, não privilegiaram a escrita, as ricas histórias dos nossos antepassados vão permanecer para sempre esquecidos na poeira do tempo. Felizmente, em Moçambique, o romance histórico está a ganhar espaço. Agora que dominamos as ferramentas da escrita, há que resgatar aquilo que é possível resgatar, através de uma escrita que nos identifique e prestigie.

OCEANOS Como se dá, em termos literários, a relação entre o português e outros idiomas falados em Moçambique? Qual idioma predomina na expressão escrita?

MARCELO PANGUANA A literatura moçambicana, e julgo que o mesmo aconteceu em Cabo Verde, Angola, Guiné Bissau e São-Tomé e Príncipe, se fez e vai se consolidando através da língua oficial que é subjacente a todos esses países, a língua portuguesa. É ela o elemento condutor, é através dela que nos formamos, que crescemos intelectualmente, que construímos o discurso literário, que afirmamos a nossa historicidade. Os portugueses nos emprestaram a sua língua para que através dela fosse possível descobrirmos o mundo. E é isso que estamos a fazer. Apesar de nos terem emprestado, não estamos a pensar em devolver a língua portuguesa, o que está a acontecer, é que estamos a introduzir nela outros elementos linguísticos locais, que estão a tornando mulata e deliciosa.

Os idiomas locais têm pouca expressão literária, o universo das pessoas capazes de escrever nesses idiomas é reduzido, as pessoas estão preocupadas nas línguas estrangeiras que lhes vão permitir chegar um pouco mais longe, obter algum dinheiro, sobreviver. Nos grandes centros urbanos do meu país, há cada vez menos pessoas a utilizar os diversos idiomas que temos como forma de comunicação. Os meios tecnológicos disponíveis somente são decifráveis em outras línguas. O ronga, o xi-sena, o changana, o xi-maconde estão a tornar-se meros exercícios de folclore. Necessitamos de inverter a situação. Há pouco tempo assinei um contrato com um projecto interessante que pretende divulgar os meus livros em diversos idiomas locais. Pode ser um ponto de partida.

OCEANOS Como surgiram as entrevistas? Foram todas feitas para veículos de imprensa ou concebidas já pensando na publicação em livro?

MARCELO PANGUANA Foram sendo feitas ao longo dos tempos, sem nenhum objectivo aparente, apenas fixar ideias, nada mais. De vez em quando, publicava algumas em páginas de especialidade. Outras permaneceram inéditas até que surgiu a ideia de as publicar num livro. Abarcam um período longo da nossa escrita, sobretudo a partir do momento em que, depois da conquista da nossa independência nacional, concluiu-se ser necessário reformular o modelo da escrita que até então predominava, uma escrita panfletária, e criar um outro discurso, com outras formas estilísticas. A escolha não obedeceu nenhum critério, ou se quiser, obedeceu a um critério afectivo, isto é, entrevistei aqueles que habitualmente tomavam comigo o café, que bebiam comigo os copos, que trocavam comigo os escritos. Este livro foi produto de muita cumplicidade. Ele também serviu para minimizar esse fosso enorme que existe entre a enorme explosão literária e a visibilidade que se concede ao escritor. Era preciso colocar o escritor a falar. A dar a cara. E isto não acontece porque também o nosso jornalismo cultural anda desencaminhado, não se sabe para aonde pretende chegar. Diria que a literatura moçambicana anda órfã, não apenas do jornalismo cultural, como de críticos, que me parece estarem preocupados com outras “causas” que fizeram com que a actividade crítica em Moçambique ficasse votada ao esquecimento e talvez seja por esta razão que a literatura moçambicana, apesar da sua vitalidade, permaneça praticamente desconhecida fora das suas fronteiras.

OCEANOS Considerando o pouco conhecimento da literatura moçambicana no Brasil e tendo por premissa que em Portugal esse desconhecimento é bem menor, poderia indicar quais autores são fundamentais para que um leitor brasileiro tenha uma boa introdução a esse universo?

MARCELO PANGUANA É uma pergunta difícil de responder porque creio que cada leitor busca numa obra literária um determinado universo. E em função dessa busca pode se entusiasmar ou então cair numa enorme frustração. É tudo muito individual. Mas existem escritores cuja aceitação é consensual. Aqui em Moçambique existem nomes que é escusado serem sugeridos porque há muito tempo que o leitor brasileiro os conhece. Estou a falar do Ungulani, cuja obra, toda ela, merece estar ao lado de outras obras universais; posso falar do Mia Couto, provavelmente o escritor moçambicano mais traduzido de todos os tempos e que o Brasil o trata como um dos seus filhos queridos; a Paulina Chiziane, um caso singular, uma escritora que veio do nada e se afirmou desde o primeiro livro. Existem outros nomes elegíveis, como o Suleiman Cassamo e Aldino Muianga, cuja obra resgata de uma forma exemplar o substracto cultural dos subúrbios de Lourenço Marques e Maputo, escritores que não buscam apenas o sabor do verbo, mas a urgência de reter a história e perpetuar a memória. E claro, alguns ícones da literatura moçambicana, como o Craveirinha, o Luís Bernardo Honwana ou de um incontornável poeta chamado Eduardo White, precocemente desaparecido do mundo dos vivos. Bastam, por enquanto, estes, porque o bornal ainda tem outros.

OCEANOS As entrevistas do livro fazem várias menções a movimentos, grupos, revistas – além de tratarem da relação do escritor com o sistema literário e sociopolítico. Como está, hoje, a situação da cena literária moçambicana? Que diferença há entre os momentos que sucederam o processo de emancipação nacional e a atual era da globalização?

MARCELO PANGUANA As literaturas, duma forma geral, nunca nascem do nada. Há sempre “movimentos” que as antecedem, movimentos literários ou políticos. Em Moçambique tivemos muitos movimentos, alguns dos quais firmaram escritores que hoje muito nos honram. Criaram-se revistas que serviram para o candidato a escritor tivesse a possibilidade de se expor e obviamente de crescer. Penso que é assim que acontece em toda a parte. As pessoas juntam-se. Fazem circular escritos e ideias. Discutem projectos de livros. E vão crescendo. Num país como o nosso, onde as dificuldades de edição estiveram sempre presentes, os suplementos culturais de algumas revistas e jornais funcionaram durante algum tempo como o espaço onde a escrita foi fermentando. Hoje, estes espaços estão desaparecendo, as políticas editoriais são outras, os que pretendem mostrar aos outros aquilo que escrevem tem muitas dificuldades. Mas a luta continua, como diria o Samora.

Hoje temos a literatura possível. Escreve-se nos intervalos do tempo. A prioridade não é a escrita, mas a luta pela sobrevivência. O escritor moçambicano, quando chega à casa, pensa mais naquilo que vai ou não comer no dia seguinte, do que na página em branco que é preciso encher de palavras. Mas apesar de tudo escreve-se. É surpreendente o número de jovens escritores que estão a surgir. A nossa literatura vai ficar em boas mãos, tem gente bastante promissora. Sei que não é elegante citar nomes porque sempre se corre o risco da omissão, o que pode ser ofensivo para alguns, mas seria intelectualmente injusto não reconhecer publicamente a existência de um Mbate Pedro, um Álvaro Taruma, um Sangari Okapi, todos poetas. A ficção narrativa oferece-nos um Aurélio Furdela, um Lucílio Manjate que recentemente viu editado um dos seus livros no Brasil, através da [editora] Kapulana. Julgo que Moçambique, apesar de todas as dificuldades, está a produzir uma das literaturas mais interessantes dentre os países africanos que têm o português como sua língua oficial. Me desculpem os “outros” por esta presunção. Para que a nossa literatura se imponha, definitivamente, precisamos, mais do que nunca, de críticos literários, assim como precisamos de editores agressivos que façam a ponte entre nós e os “outros”. Precisamos, enfim, de sair do anonimato e ocupar, duma vez por todas, o nosso lugar.