João Silvério Trevisan: “Escrever contém muitos riscos, mas também uma grande possibilidade de iluminação”

O escritor João Silvério Trevisan. | Foto: Ninil Gonçalves

por Leonardo Piana

João Silvério Trevisan foi finalista do Oceanos 2018 com Pai, pai, publicado pela Alfaguara em 2017. O romance, embora focado na relação entre o narrador e seu pai, propõe amplas discussões sobre sexualidade e cultura, compondo uma espécie de trajetória afetiva e artística de Trevisan no decorrer de sua vida. Além de escritor, ele atuou como roteirista e dramaturgo, e ministra há mais de três décadas oficinas de escrita criativa. As percepções do autor sobre a criação literária foram tema da conversa com o Oceanos.

O: Como é a sua rotina de escrita? Existe um compromisso diário com a literatura?

JST: Eu me considero um profissional da escrita propriamente dita e, portanto, tenho um relacionamento de grande responsabilidade com a minha literatura. É surpreendente quando conheço escritores que são levados a escrever por um ímpeto. No meu caso, esse ímpeto é controlado, ou, melhor dizendo, é um ímpeto que eu provoco por conta do treinamento que eu me dei.

Por exemplo, quando escrevi Ana em Veneza, que talvez tenha sido o projeto para o qual precisei da maior disciplina possível, eu tinha o projeto muito bem elaborado, o que me dava segurança para poder fazer o mergulho. Mas o curioso é que eu não matava o impulso nem a paixão. Pelo contrário: essa segurança me permitia fazer um mergulho muito mais profundo.

Sou muito rigoroso, me incomoda muito se escrevo alguma coisa intuitivamente, sobre a qual, num segundo momento, eu não tenho total domínio da expressão daquilo que a minha intuição me levou a dizer. Com Ana em Veneza, percebi que a minha intuição e a minha disciplina estavam focadas no mesmo eixo. Para mim, era o ideal como escritor. Isso não significa que os problemas estavam resolvidos. A agonia durante a escritura continuou a mesma, ou seja, ir atrás de uma palavra, da narrativa exata, do olhar exato de um personagem, se a expressão estaria ou não totalmente contida naquilo que você escreveu, tudo isso continuou fazendo parte da minha angústia criativa. Mas já era uma angústia muito mais segura.

O: No caso de Ana em Veneza, você disse que tinha um projeto elaborado, era um terreno já conhecido antes de você começar a escrever. No caso de Pai, pai, o terreno já existia antes do início da escrita do livro?

JST: Em Ana em Veneza, por exemplo, eu tinha a sensação de estar carregando um elefante nas costas. Além de abordar personagens que tinham existido, estava trabalhando com épocas que eu não conheci. Isso me dava um trabalho extraordinário de pesquisa, que não tinha necessariamente nada a ver com a expressão em si, mas eu precisava de uma grande fidelidade em relação à vida daquelas personagens.

No Pai, pai, eu não estava seguro em relação à minha própria vida. Comecei a escrever no final de uma depressão, e não sabia se seria um conto ou um ensaio. Fui tomando notas até me dar conta de que de fato eu precisava escrever um livro. E o livro todo é uma revelação para mim mesmo, uma revelação da dor, da mágoa, do perdão, do amor. Esse é o processo que eu fui elaborando, que fui vivendo durante a escrita do livro, e acho que isso é fascinante para o leitor: ele acompanha, com muita clareza, a minha própria transformação, que ocorre na medida em que o livro se articula. Eu tive uma tarefa extra: articular o meu projeto conforme ele foi se desenvolvendo. Caminante, no hay camino, se hace el camino al andar – mais do que nunca os versos do poeta espanhol Antonio Machado me nortearam.

De qualquer modo, continua, mesmo no Pai, pai, a ideia de que a expressividade é o meu objetivo. Como é que estou me expressando? Estou conseguindo expressar aquilo que de fato eu penso que estou expressando? Nas minhas oficinas, vejo clara e constantemente o mal entendido entre aquilo que as pessoas querem escrever e aquilo que elas acabam escrevendo. “O que é que você quis dizer com isso?” Aí o aluno me dá o exemplo e não tem nada a ver com aquilo que está no papel. 90% do que ele tinha a dizer ficou na cabeça, mas tem a sensação de que aquilo está suficientemente expresso. Não se trata de um problema menor, porque literatura é antes de tudo o máximo da expressão.

Ezra Pound tinha uma reflexão, que considero magnífica, em que ele definia literatura como “a linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.” Essa expressão, utilizando todos os recursos que a língua tem, é crucial, mesmo quando você pensa que esses recursos não são suficientes, ou não estão presentes, ou não cumpriram sua função. Eu tenho problemas sérios com as palavras.

O: Em Pai, pai, o leitor passa de uma completa desesperança do narrador à sua libertação. Como escritor, você entende que poderia ser essa uma função da escrita?

JST: A função da escrita é fazer com que o escritor não enlouqueça, apesar de ela tentar enlouquecê-lo. É quase um oxímoro, mas é exatamente isso: a literatura é uma espécie de recurso homeopático da alma. Você cura o seu mal através dele próprio – ele é seu próprio bem. Isso você sente, por exemplo, quando chega ao final de qualquer obra que escreve. É angustiante não ter a obra completada e perceber que não está conseguindo completá-la como você intui. Mas, quando se dá a obra por completa, a sensação é indescritível. É como se tivesse tido uma experiência do divino. Você tirou uma coisa do nada, teve uma experiência de criação do mundo. E essa é a salvação, a maneira com que você acaba acreditando na esperança. Apesar de tudo, apesar de todas as dores. O escritor que eu entendo como tal vive entre dois polos: o de uma grande dor e o de um grande êxtase. Enquanto está escrevendo, há uma dor de parto, e depois o êxtase – quando o parto já se completou e você tem a sua obra nascida.

No Pai, pai, esse movimento em busca da esperança é a própria definição do trabalho do escritor, me parece. Talvez seja essa uma maneira de não enlouquecer. Eu, particularmente, sempre fui tentado pelo desespero. Houve tentações que ficaram muito claras em meus momentos de depressão, e ao mesmo tempo é como se a depressão fosse um degrau para resgatar a esperança. Eu sou escritor, o que infelizmente não me ajuda a sobreviver financeiramente. Nunca ganhei um prêmio, aliás, sim, ganhei prêmios sem dinheiro. A gente não sobrevive de glória, que, aliás, eu nunca tive também.

Convivo com n amigos que são ainda mais fodidos do que eu graças a essa vocação, a essa missão suicida de criar. Aí me vem a pergunta: por que é que uma pessoa quer criar? Que diabos leva uma pessoa a querer escrever, contra a correnteza de sua própria vida? Eu fui morar num apartamento pavoroso, no meio de uma boca de droga e cheio de pulgas quando eu escrevi Ana em Veneza, porque estava fazendo uma escolha: ou eu vou pagar aluguel, trabalhar para pagá-lo e esquecer todo o resto, ou eu vou morar em um apartamento ferrado, pagar um aluguel baixíssimo e ter espaço para escrever a minha obra.

O: Você acha que existe alguma generosidade no ato de criar, no sentido de transmitir algum sentimento de esperança como a alcançada em Pai, pai, por exemplo?

JST: Sou muito descrente em relação à generosidade das pessoas. Eu tenho uma compreensão cada vez mais pessimista dos motivos que nos levam a querer viver. Eu percebo muito frequentemente “querer viver” como uma forma de querer viver a qualquer custo, e esse “a qualquer custo” para mim é assustador. Daí nasce luta de classes, injustiças, como se o espaço da vida fosse uma selva cheio de animais bravios tentando estapear o outro para poder sobreviver. Eu não vejo nenhuma virtude quando me dizem “você é um guerreiro”, “você sobreviveu ao seu infarto”, “você tem amor à vida”. A coisa mais fácil do mundo é ter amor à vida. Eu tenho admiração imensa pelos suicidas. Admiração imensa inclusive pela quantidade de dor a que eles sobreviveram.

Eu escrevi uma peça chamada Hoje é dia do amor que é justamente resultado do embate meu com o suicídio de um rapaz a quem eu admirava profundamente apesar de não ter nenhuma intimidade com ele, e de repente esse rapaz se atira do alto do seu prédio. Eu estava cumprindo mais uma etapa dos meus 280 anos de análise, de terapia, e escrevi essa peça. À medida que eu a escrevia, fui ficando muito assustado. No final, eu disse para a minha analista: eu não tenho mais conserto, olhe o que é que eu escrevi. O personagem terminava a peça mijando em cena – coisa que o ator nunca conseguiu, infelizmente –, xingando Deus, a plateia e o mundo todo, porque descobriu que a esperança era uma mentira. O ator ficava nu o tempo todo acorrentado a uma cruz de San Andrés numa cena sadomasoquista e o público ia para ver o belo ator com o pau de fora. Eu ficava na saída esperando para ver a cara do público. E as pessoas saíam arrasadas.

Não era uma função sádica a minha, mas era uma maneira de botar o dedo na ferida. Digamos, era uma função profética. E isso eu digo por conta da ideia de vida que está implicada no ofício de escrever, na busca de um motivo para escrever. Não acho que as pessoas escrevam por generosidade, acho que tem uma porcentagem muito grande de vaidade, sim, mas há, sobretudo, uma necessidade de escrever para compreender um pouco melhor o mundo. E alguns sequer sabem que estão escrevendo para compreender o mundo. Acho que essa inconsciência do papel do escritor muitas vezes leva excelentes escribas a não serem excelentes escritores, a não conseguirem chegar até o máximo da expressão.

A matéria-prima da literatura é absolutamente banal, é a mesma matéria-prima que você usa quando pede à professora para ir ao banheiro, ou no restaurante para lhe trazerem o cardápio. Essa é a mesma banalidade que você tem que usar para criar poesia, para criar arte da maneira mais absoluta que puder, porque você precisa disso para chegar à sua máxima expressão. É como se estivesse numa luta previamente perdida. Você tem que realmente estar o tempo todo com a função da inventividade acionada. Na literatura, você trabalha com uma língua da qual frequentemente desconhece os recursos. Trata-se de uma luta insana que tem muito a ver com essa necessidade de romper a barreira até encontrar sua expressão própria. Isso contém muitos riscos, obviamente, mas também uma grande possibilidade de iluminação.