Germano Almeida, o escritor da auto-ironia

Germano Almeida @Estante/Fnac

O escritor que fez uma espécie de revolução na literatura cabo-verdiana ganhou a 30ª edição do Prêmio Camões.

A notícia veio com um de brinde. O escritor cabo-verdiano Germano Almeida ganhou o Prêmio Camões em 2018 às vésperas do lançamento do seu 17º romance, O Fiel Defunto (Caminho), mais um exemplo do exercício da prosa irônica que lhe valeu a mais alta distinção das letras em língua portuguesa para o conjunto da sua carreira.

Germano de Almeida, de 73 anos, sucede assim ao português Manuel Alegre e é o segundo autor de Cabo Verde a vencer o Camões, depois do poeta Arménio Vieira, em 2009. No comunicado lido por José Luís Jobim, presidente do júri da edição deste ano, destaca-se a unanimidade da decisão acerca de uma obra, a de Germano de Almeida, “onde se equilibram a memória, o testemunho e a imaginação, a inventividade narrativa alia-se ao virtuosismo da ironia no exercício de liberdade, de ética e de crítica. Conjugando a experiência insular e da diáspora cabo-verdiana, a obra de Germano Almeida atinge uma universalidade exemplar no que respeita à plasticidade da língua portuguesa.”

Natural da Ilha da Boavista, onde nasceu em 1945, Germano Almeida, advogado, escritor que vive na Ilha de S. Vicente, publicou o seu primeiro livro em 1981, O Dia das Calças Roubadas, muito influenciado pela oralidade dos contadores de histórias. E soube levar essa voz para contos e romances que contrastam com uma literatura sobre a miséria, a fome ou emigração. Ele não foge a esses temas, mas introduz-lhes uma ironia que passou a ser uma marca sua e se tornou uma influência para as gerações mais novas. O seu primeiro romance, e aquele que continua a ser o livro mais popular de Germano de Almeida, O Testamento do Sr Napumoceno da Silva Araújo (1989) — adaptado ao cinema por Francisco Manso, em 1997, é um exemplo dessa capacidade de sátira que apanhou desprevenido o mundo literário de língua portuguesa. Ou como já se escreveu, rompeu com o cânone e revelou outra maneira de ser cabo-verdiano. E quem era Napumoceno? Um homem pobre que enriqueceu, mas que Germano Almeida nos apresenta assim nessa prosa muito dele: ”… penso que era sobretudo um homem que foi apanhado pelas coisas. Desembarcou descalço em São Vicente e não só comprou sapato como enriqueceu. Mas acho que ele mesmo nunca soube como nem por quê, embora seja verdade que era inteligente e tinha uma sorte danada. Mas penso que sempre receou voltar ao Napumoceno de São Nicolau.”

É a ficção. Corre quase sempre nesta toada, com uma crítica social e política implícita em livros como A Ilha Fantástica, Dois Irmãos, Da Minha Cara vê-se o Mundo, só para citar alguns títulos onde, por vezes, num único parágrafo consegue sintetizar, um país. Como neste de A Morte do Ouvidor, romance de 2010 que narra um crime histórico em Cabo Verde: “…era indispensável nos prevenirmos com um substancial mata-bicho, e de fato a minha doméstica, que Luís Henriques logo tinha tratado de conquistar prometendo-lhe uma carta de chamada para Lisboa assim que regressasse, emprego certo e garantido e bem pago, aliciava-a, não esses salários de miséria deste país que se pretende progressista e em mais de trinta anos de vida Independente sequer conseguiu ou teve coragem de estabelecer um salário mínimo nacional!, tinha-se esmerado em linguiças fritas sem gordura, na cachupa guisada, nos estrelados ovos da terra que ela nunca obtinha para mim mas agora conseguia desencantar não sei onde para agradar ao seu futuro protetor, e também um delicioso cuscuz quente com manteiga e queijo vindos diretamente da Chã das Caldeiras, garantiu sob juramento, para além de um bem cheiroso café que disse ser um especial dos Mosteiros, ela era do lugar e regularmente recebia encomendas dos familiares.”

No anúncio do prêmio, o Ministro da Cultura de Portugal, Luís Filipe Castro Mendes, sobre o humor e a sátira tão cultivados pelo escritor preferiu falar do que considera ser uma “auto-ironia benevolente” na escrita de Germano de Almeida. Presente, o ministro da Cultura de CaboVerde, Abrãao Vicente, não escondia a felicidade pelo prêmio de Germano Almeida. “Ele de certa maneira rompe com uma forma se calhar demasiado séria e talvez demasiado elitista de olhar a própria literatura”, referiu, e o poeta José Luís Tavares, outro membro do júri, também cabo-verdiano, referiu, em declarações ao jornal Público, que ele fez uma espécie de revolução na literatura do seu país. “De repente o Germano chega e começa a fazer uma literatura de sátira social, risível, que põe os cabo-verdianos a meditar sobre os seus problemas, mas de uma forma mais leve, mais irônica. Não deixando de fazer pedagogia, mas pelo riso e pelo escárnio.”

Uma revolução que também é política, ao assumir, por exemplo, uma escrita em língua portuguesa e não em crioulo de Cabo Verde. Ao mesmo jornal, Germano explicou, nesse mesmo dia, a razão para essa opção que muitos leem como uma negação de identidade . “Para mim a língua portuguesa tem o mesmo peso que a língua cabo-verdiana. Sou filho de pai português e de mãe crioula, cresci com as duas línguas, mas aprendi a escrever em português e não pretendo começar a escrever em crioulo. Eu expresso a cultura cabo-verdiana usando a língua portuguesa.”

É isso que continua a fazer neste recentíssimo O Fiel Defunto, uma paródia acerca de um escritor que é assassinado em pleno lançamento de um livro.