Graça Machel: “A igualdade é nossa origem e nosso destino comum”

Graça Machel (foto: Diamonds Do Good Global Humanitarian Award)

Leonardo Piana

A ativista moçambicana Graça Machel inaugurou ontem (15) o ciclo de conferências do Fronteiras do Pensamento 2019 em São Paulo, no Teatro Santander.

O tema da noite Sentidos da vida foi inspirado por uma reflexão do cronista Contardo Calligaris: Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante. A escolha da primeira conferencista de 2019 foi certeira: não faltam razões para afirmar que a vida de Graça Machel é mais que interessante.

Viúva de Nelson Mandela, a ativista pelos direitos humanos lutou na Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) durante a Luta Armada da Libertação Nacional. Foi Ministra da Educação e Cultura do governo moçambicano por 14 anos período em que o número de estudantes nas escolas aumentou em 80%. Graça é também fundadora de uma ONG de apoio ao empreendedorismo feminino no continente africano e presidente de diversas fundações para o desenvolvimento de comunidades.

Vou falar das coisas muito simples da nossa vida, iniciou a conferencista. Estou aqui, sou mulher, sou negra e sou africana, e afirmo isso com muito orgulho. Aos poucos, em ritmo sóbrio e precisão na escolha de palavras simples, Graça discutiu a naturalidade da vida como proposta de abertura para um debate mais amplo. Para ela, ser mulher, negra e africana é uma distinção natural o que não caracteriza, portanto, um fator de exclusão. Nasci da mesma maneira, o que me faz absolutamente igual a qualquer outro ser humano. Vejam em mim apenas mais um ser humano. A igualdade é nossa origem e nosso destino comum, disse.

O reconhecimento da igualdade sem parâmetros de cor, origem, religião ou gênero como agente de transformação para uma sociedade mais digna foi o foco do discurso de Graça durante quase uma hora de conferência. A questão de gênero, aliás, é de importância central na luta empreendida pela política moçambicana. Hoje as mulheres são alvo na medida em que afirmam seus direitos. A sofisticação da violência contra as mulheres é sem precedentes, disse. Há mulheres que morrem todos os dias. Isso não é natural.

Para Graça, natural é reconhecer e valorizar a dignidade de todo ser humano, independentemente das escolhas que tenha feito. Nós todos repudiamos os colonialismos e as ditaduras, porque privavam as pessoas do sentido de liberdade, afirmou, daí a importância de abraçar causas que nos façam iguais.

No mesmo dia em que escolas e universidades declararam paralisação e milhares de manifestantes clamavam contra os cortes na educação em diversas capitais do país, o discurso da ativista moçambicana tratou ainda da importância do engajamento na lutas populares. Proponho que construamos grandes movimentos sociais, disse, ao abordar o que chamou guerra contra contra as mulheres, contra os pobres e contra os que professam uma religião diferente guerras travadas com base nos interessem de um grupo.

A ativista encerrou a fala com um chamado à mobilização de todos para a garantia de um futuro mais digno: “Eu proponho, nessas reflexões, olharmos todos mais para aquilo que nos une, aquilo que nos faz iguais, para gradualmente destruir as diferenças que estamos habituados como se fossem naturais”. Foi aplaudida de pé.

O Fronteiras do Pensamento chega, neste ano, a sua 13ª edição e acontece em Porto Alegre e São Paulo. Além de Graça Machel, a programação conta com o escritor norte-americano Paul Auster; o filósofo e escritor britânico Roger Scruton; o médico congolês e Prêmio Nobel da Paz em 2018 Denis Mukwege; a física e astrônoma norte-americana Janna Levin; o cineasta alemão Werner Herzog; o psicanalista e cronista italiano radicado no Brasil Contardo Calligaris e o filósofo francês Luc Ferry.

As conferências vão até o dia 13 de novembro deste ano. Os ingressos podem ser adquiridos no site do projeto.