Joca Reiners Terron: “O presente brasileiro é distópico por excelência”

O escritor brasileiro Joca Reiners Terron.

Foi assim que o escritor brasileiro Joca Reiners Terron definiu o momento atual, marcado pela “crise da verdade”, em que prevalecem disputas narrativas sobre os acontecimentos e fakes news.

No dia 12 de outubro, no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, em conversa com a gestora cultural e curadora do Oceanos Selma Caetano, Terron afirmou ainda que “cabe ao autor de ficção o compromisso de criar uma realidade que esteja à altura desse conflito imaginativo em que a vivemos hoje”.

Sou um autor monotemático”, brincou, ao se referir às possibilidades de criação literária e ao fato de suas obras serem marcadas por reflexões em torno de temas apocalípticos. “O fim do mundo é diacrônico. Ele já aconteceu. Para os índios, já aconteceu há muito tempo para o cara que passa empurrando carrinho de supermercado nas ruas de São Paulo, já aconteceu.”

O escritor lança neste mês A morte e o meteoro, pela editora Todavia, novela escrita a partir de um conto sobre o futuro encomendado pela revista Granta ao autor. Trata-se de uma distopia futurista, ambientada em um cenário catastrófico, principalmente no que se refere ao aspecto climático, cujo ponto de partida é o exílio de um grupo indígena remanescente no Brasil.

O escritor foi semifinalista do Oceanos 2018 com o romance Noite dentro da noite, publicado pela Companhia das Letras em 2017. Questionado por Selma sobre o processo de elaboração em torno da memória de um narrador muito particular, além de possível caráter autobiográfico da obra, explicou: “o livro tem algumas peculiaridades: é um romance longo com em torno de 500 páginas e é narrado em segunda pessoa, o que é bastante incomum. O narrador é, mais apropriadamente, narrado, tratado apenas por você e contado por outros narradores, que viram e acompanharam o passado desse sujeito. Na medida em que ele ouve todos os testemunhos a respeito de si mesmo, a história vai se construindo.”

De alguma forma, o livro pretende retratar, como uma espécie de polaroid do tempo, o surgimento da imaginação ficcional e de como ela é fundamental para a autopercepção de todos nós. Conforme crescemos e amadurecemos, o que resta são ficções: nós nos lembramos do passado como se fosse uma obra de ficção, uma construção mental. Investigar esses vínculos com o passado e essas distorções todas que o esquecimento acarreta foi o que moveu meu desejo para escrever o livro.”

Ao final da conversa, o autor destacou a importância do paradoxo entre a identificação e o distanciamento durante o processo de criação literária. Segundo Joca, referindo-se mais especificamente à construção do narrador em seu romance A extraordinária tristeza do leopardo-das-neves, também publicado pela Companhia das Letras, em 2013, “o trabalho de ficção é de enxertar suas obsessões e sua identificação ou autoidentificação em personagens que não obrigatoriamente tem a ver consigo”.

Selma Caetano e Joca Reiners Terron no FOLIO 2019.

Sobre o autor

Joca Reiners Terron nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, e vive em São Paulo. Publicou livros de poesia, de contos e seis romances, entre eles Do fundo do poço se vê a lua, no Brasil pela Companhia das Letras, e, em Portugal, pela Teorema; e os mencionados durante a conversa: Noite dentro da noite e A extraordinária tristeza do leopardo-das-neves, ambos pela Companhia das Letras, e o mais recente A morte e o meteoro, pela Todavia.