“Marcha à ré” de Nuno Ramos contra o retrocesso

O som desconcertante de respiradores mecânicos e monitores cardíacos, reproduzido por mais de cem automóveis em marcha à ré, tomou a Avenida Paulista e a Rua da Consolação, em São Paulo, na noite de ontem, 4 de agosto de 2020. O protesto-performance foi idealizado pelo escritor e artista plástico brasileiro Nuno Ramos, em parceria com a companhia Teatro da Vertigem. Nuno foi vencedor do Oceanos 2009, com o inclassificável “Ó”, e 2012, com o livro de poemas “Junco”, ambos publicados pela Iluminuras.

O artista plástico e escritor brasileiro Nuno Ramos, durante a performance | Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

O artista e a equipe de produção circulavam entre os carros na contramão vestidos em macacão branco de mangas compridas, máscaras cirúrgicas e luvas nas mãos, como socorristas. Pedestres, ciclistas e outros motoristas que passavam pela região eram atraídos pela sinfonia angustiante, produzida em alto volume e incessantemente. Metáfora crítica ao governo brasileiro, agente de constante retrocesso político, social, cultural e ambiental, o protesto-performance “Marcha à ré” – nome dado ao cortejo – foi filmado pelo cineasta e documentarista brasileiro Eryk Rocha e vai virar curta-metragem a ser exibido na Bienal de Berlim, que acontece entre setembro e novembro deste ano.

O cenário era perturbador e tudo confluía para a impressão de uma UTI noturna, a céu aberto – de acordo com a organização, uma maneira de homenagem e luto pelas vidas perdidas pela Covid-19, sobretudo devido ao descaso e ao negacionismo do governo.

O ato teve fim em frente ao Cemitério da Consolação, onde, cessado o som dos carros, um trompetista tocou o hino nacional ao contrário sobre o pórtico de entrada – crítica ao nacionalismo bolsonarista. Estendida abaixo dele, a figura de um rosto de mulher em agonia: “A série trágica – Minha mãe morrendo”, obra do artista brasileiro Flávio de Carvalho (1899 – 1973), registro em carvão dos últimos momentos de vida de sua mãe.