Mbate Pedro: “Ao lançar um livro no Brasil, estou a carregar toda uma geração de escritores moçambicanos”

por Leonardo Piana

A convite do Oceanos, o poeta moçambicano Mbate Pedro esteve no Brasil entre os dias 7 e 13 de julho para participar de diversas atividades literárias e lançar a edição brasileira do livro de poemas Vácuos, editado no país pela Cepe — Companhia Editora de Pernambuco, com o apoio da Associação Oceanos. A obra foi finalista do Prêmio Oceanos 2018 com a edição moçambicana, da Cavalo do Mar.

Manuel da Costa Pinto e Mbate Pedro | Foto: Selma Caetano

Em São Paulo, Mbate participou de bate-papo na Escrevedeira com o crítico literário e curador do Prêmio Oceanos Manuel da Costa Pinto, seguido de sessão de autógrafos do livro. Nos dias 9 e 10, esteve em Salvador, Bahia, para conversa com estudantes de Letras da Cátedra Fidelino de Figueiredo, da Universidade do Estado da Bahia, sobre poesia moçambicana e a correspondência entre medicina e literatura. “Um médico que só medicina sabe, nem a medicina sabe. Sem a leitura serás um mau médico”, afirmou.

Isabel Lucas e Mbate Pedro | Foto: Edmar Júnior/Sesc

Na 17ª Flip — Festa Literária Internacional de Paraty, que aconteceu entre os dias 10 e 14 de julho, o poeta esteve na Casa Edições Sesc para conversar com a jornalista portuguesa e curadora do Oceanos Isabel Lucas na mesa Língua Portuguesa e Cultura Moçambicana.

Ambos aprofundaram-se em aspectos políticos durante suas falas. Eles criticaram a falta de conhecimento entre as literaturas de língua portuguesa produzidas em diferentes países como um dos principais impedimentos para o intercâmbio cultural. “A periferia não chega ao centro, o centro não vai à periferia”, afirmou Mbate, ao tratar da escassez de autores africanos publicados no Brasil e em Portugal, e vice-versa.

De acordo com ele, é publicado um número pequeno de obras literárias em seu país, sobretudo de autores estrangeiros, se comparado a outros países de língua portuguesa. Para suprir esta demanda, uma das iniciativas do poeta foi a criação da editora Cavalo do Mar, “dedicada à publicação de livros com boa qualidade gráfica em Moçambique”, inclusive de autores de outras nacionalidades. O escritor brasileiro Luiz Ruffato, por exemplo, teve seu livro Eles eram muitos cavalos publicado pela Cavalo do Mar, em Moçambique, no ano passado.

Ao destacar a qualidade da poesia escrita por mulheres no Brasil, como Ana Martins Marques e Marília Garcia — ambas vencedoras do Prêmio Oceanos — Mbate apontou o machismo existente no meio literário: “não se leem mulheres em meus país”, disse. O poeta indicou também seu desejo de publicar escritoras em Moçambique.

Durante o encerramento da mesa, em resposta a uma questão do público, Isabel e Mbate discutiram a carência de políticas para democratização e acesso à literatura produzida em diferentes países de língua portuguesa. Segundo Isabel, não há qualquer política institucional de órgãos como a CPLP — Comunidade dos Países de Língua Portuguesa que permitam o intercâmbio cultural efetivo entre os países-membros.

Mbate Pedro e Selma Caetano | Foto: Cristiano Muniz

No mesmo dia, na Casa Paratodxs, a gestora cultural e curadora do Oceanos Selma Caetano se reuniu com Mbate para um bate-papo sobre a edição brasileira de Vácuos. Questionado acerca de seu processo criativo, o poeta revelou, bem-humorado, que parte da inspiração para formular versos está associada à melancolia: “o escritor tem que sofrer para que o leitor tenha prazer”, disse.

Em discussão sobre as particularidades da literatura moçambicana, ele mencionou o exotismo associado à imagem do escritor africano quando publicado em outros países. “Nossos materiais de trabalho são exatamente iguais aos dos escritores em qualquer parte do mundo”.

Ao fim da conversa, o poeta reafirmou a necessidade de difusão de obras escritas por africanos: “Há muito bons autores que são ilustres desconhecidos em outros lugares”. Em resposta ao pedido de recomendações de vozes da poesia moçambicana, destacou nomes como Eduardo White, Sangare Okapi, Noémia de Sousa e Luís Carlos Patraquim — este, vencedor do Prêmio Oceanos 2018.

Mbate Pedro | Foto: Cristiano Muniz

Bate-papo com Oceanos

Além das atividades em que esteve presente, Mbate Pedro concedeu também entrevista exclusiva à equipe do Prêmio Oceanos, em que se aprofundou em temas como intercâmbio literário e literatura africana. Leia abaixo a entrevista completa:

Oceanos: É ainda muito escasso o número de autores africanos que são publicados no Brasil e vice-versa. Enquanto poeta, qual o impacto da publicação de seu primeiro livro no Brasil?

Mbate Pedro: Temos a necessidade de acessar a outros públicos. Eu tenho dito que o principal problema das literaturas de língua portuguesa é a fraca circulação dos livros dos autores dentro do próprio espaço da língua portuguesa. Não só entre Moçambique e Brasil, ou Moçambique e Portugal. Quando pegas livros, por exemplo, de Eduardo White, que eu considero um de nossos maiores poetas, andas duzentos quilômetros fora de Maputo e ninguém o conhece.

Às vezes, falo com autores portugueses muito bons que circulam em festivais, como Valter Hugo Mãe, que há um bocado esteve em Maputo e é um popstar. Quando o Valter chegou a Maputo, não havia quase nenhum livro dele em nenhuma livraria. Foi preciso um exercício com a editora para ter alguns livros na altura do festival. Os livros não circulam dentro do nosso espaço, e se circulam é no meio de um grupo muito fechado, uma elite-classe de leitores.

Então, para mim, obviamente, é uma oportunidade, e eu costumo dizer às pessoas de minha geração, ao lançar um livro no Brasil, como Vácuos, que é o meu primeiro no país, estou a carregar toda uma geração de escritores moçambicanos muito bons que já têm sete, oito livros publicados. Também estou a representar a eles.

O: Você tem alguma expecativa em relação à recepção de Vácuos pelos leitores brasileiros?

MP: O Brasil, em número de título públicados, não se compara a Moçambique. Em Moçambique, por ano, publicam-se entre 300 e 500 títulos. No Brasil, ouvi dizer que são em torno de 40 ou 50 mil títulos por ano, e nem sei se há livrarias suficientes para colocar esses livros todos. Uma boa parte da minha formação literária foi a ler poetas brasileiros. Posso esperar de tudo, mas estou feliz que o livro aceda a outro tipo de leitores. Uma literatura que não tem leitores não existe.

O: Quais foram esses poetas brasileiros que contribuíram para sua formação?

MP: Eu tive acesso a Drummond, que me abriu acesso a outros poetas. E meu segundo livro sofre muita influência também do Ferreira Gullar, que é um extraordinário poeta.

Há uma história interessante em relação a Carlos Drummond de Andrade, que foi introduzido por um professor de português que gostava muito de poesia, na escola secundária. Eu tinha por acaso 12 ou 13 anos, e gostava muito daquele verso, havia uma pedro no meio do caminho — um verso lindíssimo. No caminho de volta para casa ou até a escola, investíamos pela rua principal, onde havia um atalho de pedregulhos que ficou, durante anos, à espera de uma obra que colocasse lá asfalto. O primeiro contato que eu tive com esse verso do Drummond fez muita confusão na cabeça. A gente passava por aquele atalho com pedregulhos e dizia esse brasileiro deve ser um louco. Para nós, era contrário o processo: será que haverá um caminho no meio dessas pedras todas? Eu tinha 12, 13 anos, e era aquele só um atalho cheio de pedras. A gente estava a perceber aquele verso: o que isso quer dizer? É um desperdício tentar perceber um poema. Drummond serviu para a gente ter esse gosto pela língua e gosto pela literatura, e abriu a porta de outros escritores. Depois cheguei a Clarice Lispector, Hilda Hilst, Mário Quintana e Manoel de Barros — que influenciou muito a minha geração.