“Na literatura o desejo está do lado da verdade”

O desejo pode ser uma possibilidade política defendeu Bernardo Carvalho numa conversa em Lisboa sobre Literatura e Desejo. Tendo como pano de fundo o seu recente romance Simpatia pelo Demónio, o escritor quis recuperar a ideia de desejo opondo-a à de identidade para que se crie uma literatura e uma política de verdade.

Por Isabel Lucas, curadora do Oceanos, de Lisboa.

“O desejo interessa-me na literatura como um elemento de acção política, da possibilidade política da literatura”, afirmou o escritor Bernardo Carvalho numa conversa cujo tema era Literatura e desejo e que aconteceu esta terça-feira, dia 5 de junho, na sede do Instituto Camões, em Lisboa. No tom descontraído, com a plateia lotada, o autor de Simpatia pelo Demónio, romance que foi um dos vencedores da edição de 2017 do Prémio Oceanos, começou por dizer que o tema do desejo o acompanha desde seus primeiros livros. “É um tema muito presente e, para mim, muito ligado à literatura do ponto de vista político”.

Luís Faro Ramos, presidente do Instituto Camões, apresenta o escritor Bernardo Carvalho

“Com este livro mais recente, Simpatia pelo Demónio, isso que esteve sempre presente, ainda que de forma menos consciente do que eu gostaria, ganhou uma nova consciência e uma nova dimensão, sobretudo porque o livro foi gestado no âmbito de acontecimentos sociais” acrescentou, referindo-se a atentados terroristas, mas também à política identitária de género que acabou por associar ao tema, ainda que, confessando, de forma algo inusitada, porque são duas manifestações que parecem opostas e contraditórias, mas onde reconhece um elemento comum: “em ambas as manifestações o desejo é um problema”.  Bernardo Carvalho refere então os dois atentados terroristas que mais o comoveram na época, antes de escrever o livro. O atentado em Paris, no Bataclan (Novembro de 2015), onde o que esteve em causa, sob pretextos ideológicos, religiosos, é o prazer do outro, e o atentado numa boite gay na Flórida, Orlando (Junho de 2016), onde, como no de Paris, “o terrorista escolhe o lugar onde o prazer do outro está concentrado”.

Antes de avançar na sua exposição, o escritor fez uma espécie de preâmbulo, confessando que as suas ideias acerca do tema carregam a dúvida de quem as está a pensar e que é totalmente a favor dos movimentos de luta pelas identidades trans-género, que cada um tenha o controlo do seu próprio corpo, a favor dos feminismos que combatem a violência sexual que é propiciada pela desigualdade de género. E explica então por que associa esses actos terroristas à política identitária:  “o desejo cria um problema a ambas as manifestações”. E precisa: “No caso da política de género, o discurso de emancipação dos gays de outras épocas, em que a ênfase era o desejo, eram movimentos para que aquele desejo fosse reconhecido, agora, na passagem para a política identitária — tanto no transgénero como no feminismo actual — o ênfase foi deslocado do desejo para o género”.

A ironia de tudo isto, salienta Bernardo Carvalho, é uma espécie de criminalização do desejo. Salvaguardado todas a ambiguidades presentes nessa questão, o escritor passa a ser sinónimo de problema. Nos movimentos anteriores o desejo não era o problema mas o objecto, o ênfase do discurso. Lembra Michel Foucault e o último volume da sua História da SexualidadeAs Confissões da Carne, que trata de como o Cristianismo tentou controlar a vida privada das pessoas e onde há uma separação entre sexo e desejo. Essa separação seria o modo de a Igreja ter controlo e jurisdição sobre a vida íntima e sexual das pessoas. “Isso foi uma espécie de confirmação de algumas inquietações que eu tinha quando escrevi o Simpatia pelo Demónio”, referiu ainda o escritor.

E de Foucault seguiu para Santo Agostinho, mais concretamente, A Cidade de Deus.  Trazendo à conversa o modelo de virgindade defendido pelo Cristianismo onde os mosteiros eram uma espécie de propaganda de modelo de vida, sublinha o paradoxo: se todos seguissem sendo virgens acabava o ser humano e com isso, a razão de controlar. E nisso, estava ainda embutido outro paradoxo: haviam dois géneros no paraíso e, então, era impossível não haver sexo. “A saída genial de santo Agostinho, e bastante perversa, é a criação de uma separação a que Foucault achava deslibidinização do sexo, ou seja, a separação entre sexo e desejo, em que o sexo é um elemento de controlo da vida privada, bem-vindo, e o desejo é a devassidão, o descontrolo, e deve ser combatido.”

Ler isso recentemente fez ecoar a Bernardo Carvalho a preocupação já existente na sua literatura, a de sempre achar que o desejo está do lado da verdade e que a identidade está do lado da mentira. “Sempre que o desejo se manifesta está do lado do real, da verdade, do que contradiz a razão, o que nos contradiz, e a identidade é como se fosse uma muleta que encobre esse descontrole, esse desvario, essa devassidão que o desejo representa”.

É nessa dicotomia que a sua literatura está ancorada, uma dicotomia que já está presente numa certa tradição. Um dos seus praticantes foi Philip Roth, o escritor americano que morreu recentemente. “Nessa tradição, o desejo, ao mesmo tempo que dá vida ao sujeito, elemento vital, põe o sujeito em contradição com o meio ao qual pertence. É como se o desejo viesse contradizer todo o tipo de pertença e de identidade. No cenário mais geral dos atentados terroristas e das lutas identitárias, comecei a fazer uma associação, a de que o desejo e a identidade são opostos. Toda a luta identitária está encobrindo uma verdade que a literatura deveria revelar, e revela quando está associada ao desejo e à representação desse elemento que é não só incontrolável mas contraditório e, por vezes, insuportável”.

Sintetizando, o que Bernardo Carvalho mais aprecia nessa tradição é a ideia de que o desejo está do lado da verdade e que a literatura está ligada à verdade, uma literatura do real de forma radical, em que o contraditório tem de estar presente e a incoerência é fundamental o que de certa forma é incompatível com as lutas identitárias que vivemos hoje. “A luta identitária precisa de criar algum tipo de convenção e de acreditar na tradição como se ela fosse uma natureza, algo que sempre existiu. As identidades nacionais são isso. Para a literatura isso acaba sendo uma impostura. A literatura tem de quebrar essas convenções e essas crenças. Isso só acontece deixando a literatura ser trespassada pelo desejo e todas as formas de autocontradição.”

Veja aqui os primeiros 10 minutos da conferência nos quais o presidente do Instituto Camões, Luís Faro Ramos, apresenta Bernardo Carvalho que explica a escolha do tema “Literatura e desejo”.

 

Bernardo Carvalho fala sobre desejo no projeto “Camões dá que falar”, do Instituto Camões

 

O escritor português Gonçalo M. Tavares, o escritor cabo-verdiano Filinto Elísios, a editora Clara Capitão e muitos outros convidados lotavam a sala do Instituto Camões

 

Cartaz na entrada do Instituto Camões, em Lisboa