O Fio da Meada, por Isabel Lucas

Leia o texto e escute o áudio da coluna que Isabel Lucas, uma das curadoras do Oceanos, publica regularmente na seção O Fio da Meada, disponível no site da RTP e na qual se alterna com outros cronistas, jornalistas e escritores portugueses.

 

A memória do 11 de Setembro na crónica de Isabel Lucas | 11 Set, 2018

“O som já dispensa legendas. Ouve-se e nunca chega a haver um vazio. Em cada cabeça ele é preenchido por uma sucessão de imagens que identificam uma manhã de terça-feira, como esta. Fazia sol em Nova Iorque até que o dia se fez negro com o voo de cinzas e, como disse Don DeLillo, as ruas deixaram de ser ruas. Foi há 17 anos, num dia como outro dia qualquer em que de repente tudo mudou.

Sabemos como foi, como tem sido, depois da frase profética de que a partir dali o mundo não mais seria como antes. Quem se lembra sabe não apenas da incerteza que a afirmação carregava como da velocidade da transformação. Com os nossos olhos de hoje vemos como aquele horror em directo tinha então uma inocência que se perdeu. Porque as imagens tantas vezes se repetiram, porque outros horrores se sucederam mais ou menos em direto; porque outro tipo de guerra começou e se banalizou naquele dia e interferiu na memória enquanto processo de construção colectivo.

Como se vive e se passa a outras gerações a memória deste dia para que esse testemunho cumpra a sua função: a de que o acontecimento que a gerou não se repita? Como se deve contar a história das catástrofes perpetradas pelo homem? É nossa responsabilidade reflectir sobre isto, quando, por exemplo, arde a Biblioteca Nacional do Brasil. Que fique então a ruína, defendeu o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, como memória das coisas mortas. E imagem da ruína ali estava, aterradoramente bela; um belo horrível a que assistiram todos os que olharam mil vezes a queda das torres, hipnótico, incompreensível. 

Perante aquela recente imagem do Rio de Janeiro fui assaltada pela ruína de Nova Iorque a 12 de Setembro, a ruína que se apressaram a preencher porque era preciso apagar o medo, assegurar a vitalidade de uma civilização que hoje, anos depois, nunca vimos numa encruzilhada tão perigosa.

Já tudo foi dito, tudo parece ter sido visto. No entanto, esta semana anunciaram-se mais imagens inéditas, reabriu uma estação de metro que então fora arrasada… e a memória desse dia é uma permanente reconstrução.

E a minha memória daquele dia passou a ser contaminada pela de todos os meus dias seguintes naquele lugar onde nunca estive antes de 11 de Setembro de 2001 e é agora mais ou menos parte do meu quotidiano. Estive lá quando Barack Obama anunciou ao mundo a morte de Bin Laden. Perante o aparato de segurança e de jornalistas, apercebi-me, como nunca, da dimensão da tragédia. Coisa de pele. Havia uma celebração silenciosa, fruto de medo e de vingança que nenhuma reconstrução urbana apaga. E depois voltei muitas vezes, tantas, vi os trabalhadores da reconstrução irem sendo substituídos por cada vez mais pessoas no seu dia-a-dia de normalidade. E eu entre elas. Entro e saí das estações de metro próximas, das lojas, da estação onde chegam e de onde saem os comboios que ligam Manhattan ao outro lado do Hudson, convivo com quem todos os dias limpa os mármores ainda brancos do pavimento. Vejo as novas torres chegada da ponte de Brooklyn. Sou mais um. Podia ser eu. No terror todos somos iguais como é igual a massa de gente na passadeira para atravessar a rua, à saída da estação.

A singularidade é a dos isolados.

À noite tudo muda. O jardim da memória do 11 de Setembro fecha e com ele os únicos bancos capazes de abrigar um homem no frio de uma noite de inverno. Vi-o de pé, chovia. Um segurança barrou-o. Em nome do medo. O medo do assalto ao lugar erguido em memória de um terror que não se quer ver repetido.”