“O gosto de escutar o outro, integrar diferenças, parece viver seus últimos dias”, diz Mia Couto

Foto: Taba Benedicto

Em 9 de abril, o escritor moçambicano Mia Couto participou no Sesc Pinheiros, em São Paulo, do evento de lançamento da nova edição de Grande Sertão: Veredas (Companhia das Letras), de Guimarães Rosa. Durante sua fala, Mia homenageou o autor brasileiro e ressaltou aspectos históricos e políticos do Brasil. Leia abaixo algumas das declarações do escritor:

Sobre a escrita de Guimarães Rosa:

Os territórios onde nascemos são, como diz Rosa, estes pastos que carecem de fecho. Agora sei, nenhum ciclone pode arrombar esta potência. A escrita de Rosa recuperou uma infância que já foi a minha e que não distinguia a fronteira entre o corpo e o mundo. Esta fronteira, esta parede, nasce muito depois de termos nascido.

Sobre o Brasil:

O Brasil nasceu de um passado de escravatura, violência racial e genocídio. Estas marcas estão ainda bem vivas. Apesar de tudo, o Brasil é um lugar de afetos profundos e de integração daquilo que parece estranho e diverso. Durante anos, o Brasil foi para nós uma escola, um lugar de eterna inspiração. No Brasil, acolhemos vozes que afinal eram as nossas. No Brasil, fizemos amigos e no Brasil encontramos, enfim, a nossa segunda pátria. O Brasil e os brasileiros inspiraram profundamente a nossa escrita. Não existem palavras para dizer o quanto somos devedores do universo criativo da grande nação brasileira. É com grande temor que vemos que este Brasil pode estar agora em perigo. A tolerância está sendo substituída pelo ódio. O gosto de escutar o outro, integrar diferenças, parece viver seus últimos dias. Temos a crença que nenhum pretenso salvador da pátria substitui o exercício da democracia das instituições brasileiras. Estamos certos de que, como diz a canção, o Brasil se levantará, sacudirá a poeira e dará a volta por cima. Estamos com o Brasil que aprendemos a amar e que não queremos perder. Não ao ódio e sim à democracia.

Seleção de trechos de Renée Zicman.

Foto: Renée Zicman