Festival Literatura-Mundo do Sal: Machado e o “sentimento íntimo”

Manuel Halpern, José Carlos Fonseca, Clara Riso, Julián Fuks e Viviane Trindade

A intimidade com o tempo e com o lugar onde se escreve marcou a mesa inaugural do festival literário do Sal, uma ideia de Machado de Assis trazida à mesa por Clara Riso, a directora da casa Fernando Pessoa, e moderadora de um painel que tinha como tema “A Literatura Nacional e/ou Internacional”. Nesse contexto, o escritor brasileiro Julián Fuks falou de uma sua percepção recente: a de que a literatura já tem pouco a ver com a imagem de um sujeito — o autor — fechado no seu pensamento. “Hoje a literatura é feita muito mais em diálogo”, disse, referindo-se ao convocar para o processo de pfrodução literária de um colectivo no qual participam o autor e os hipotéticos leitores. O sentimento de intimidade de que falava Machado de Assis esteve muito presente ao longo do debate. Uma intimidade com a língua e no modo de exposição na escrita. Jorge Carlos Fonseca, escritor, e também presidente da república de Cabo Verde, trouxe à conversa o papel do acaso na poesia. O jornalista português Manuel Halpern focou-se na crónica enquanto fronteira entre relato do quotidiano e, no seu caso, o exercício da ficção. Neste contexto, lembrou as crónicas literárias de António Lobo Antunes como exemplares. A investigadora brasileira Viviene Trindade, especialista no estudo das literaturas indígenas, sublinhou os contágios num território partilhado e construído por uma população autóctone e por falantes de língua portuguesa. Houve uma absorção de modos de narrar e de vocabulário. “O Brasil é fruto dessa intervenção. Os indígenas exigem como existem os portugueses”. Foram pistas para um debate que se pediu que continuasse para além do Sal.
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