“O que é que o Chico tem?”

Paulo Werneck, Isabel Lucas, Geovani Martins e Clara Capitão. Foto: Festival Literário Internacional de Óbidos

Chico Buarque dispensa apresentações. Neste ano, foi atribuído ao artista o Prêmio Camões, considerado o mais importante para autores de língua portuguesa. A cerimônia de entrega do prêmio está marcada para abril de 2020, em Portugal, e oferece um valor de 100 mil euros, pagos por Brasil e Portugal, e certificado tradicionalmente assinado pelos presidentes dos dois países. O presidente do Brasil, porém, declarou que assinará o documento apenas no dia 31 de dezembro de 2026. Após a polêmica, Chico afirmou que “a não assinatura do Bolsonaro no diploma é para mim um segundo prêmio Camões”.

Se o presidente do Brasil recusa-se a homenagear o artista, o Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, encontrou a ocasião oportuna para fazê-lo. “Nunca havia visto, desde que acompanho os Prêmios Camões – e tenho escrito sobre os últimos – essa festa a envolver o nome do vencedor”, disse a jornalista portuguesa Isabel Lucas durante a apresentação da sessão, no dia 19 de outubro. Participaram da conversa a editora portuguesa Clara Capitão, o escritor brasileiro Geovani Martins e o editor brasileiro Paulo Werneck.

Paulo Werneck, Isabel Lucas, Geovani Martins e Clara Capitão. Foto: Festival Literário Internacional de Óbidos

Os presentes compartilharam com o público histórias envolvendo Chico e comentaram suas músicas e personagens favoritas. Mas, afinal, como questionou Isabel aos participantes no início da sessão, o que é que o Chico tem?

Clara Capitão: “É de uma relevância e de um significado particularmente pungente a atribuição do Prêmio (Camões) a um artista, a um homem da palavra, que não deixa de chamar a realidade e a atualidade política para a sua obra. Que não se preocupa em se alienar de eventuais leitores ou compradores de discos, reclamando para si o direito de dizer o que pensa. Que não deixa de ser essa voz ativa nesse momento em que a liberdade de expressão e criativa é gravemente posta em causa no Brasil.

O Chico é minucioso de fato. É algo que o Wisnik diz: não há uma palavra fora do lugar, não há uma frase mal construída. Há um sentido de ritmo, há um sentido da palavra justa para dizer aquilo, e a quantidade de palavras necessárias para dizer aquilo. Está tudo bem escolhido.”

Geovani Martins: “Essa combinação de uma técnica muito apurada e sem deixar de ser emocionante é uma das coisas que mais me fascina no Chico Buarque enquanto poeta. Sobre o Camões, lembro que, assim que saiu o prêmio, o Sérgio Rodrigues, um de meus cronistas preferidos no Brasil hoje em dia, escreveu que se o Chico não escrevesse em uma língua tão periférica no mundo, esse Nobel que caiu para o Bob Dylan cairia muito bem para ele, e eu concordo plenamente. É um autor que merece todas nossas honras e homenagens.”

(O prêmio) ter chegado nesse ano de 2019, em que tem acontecido uma espécie de demonização da cultura como um todo e o Chico aparece como um dos atores mais atingidos nesse esquema de ódio à cultura e à arte no Brasil, é muito importante até em resposta a esse movimento. Esses artistas são tão fundamentais para a cultura popular brasileira, para a língua portuguesa em geral, e eu acho que é o momento de defendê-los. Depois de tudo o que foi feito, eu não consigo pensar em uma injustiça maior com essas pessoas do que serem crucificadas de uma maneira tão estúpida e tão leviana, que apaga tudo o que foi feito por conta de um posicionamento ou outro. Existe até uma galera que gosta da música do Chico, mas diz que, quando ele começa a falar de política, não funciona. Aí você pensa: a pessoa não entendeu nada.”

Paulo Werneck: “Ele tem uma coisa muito poderosa na palavra. Acho que talvez a obra dele como poeta já baste para ganhar um prêmio internacional. Ele tem isso de ser um grande cronista em suas letras musicias, um grande romancista. Tem discos inteiros que são romances e tem letras que são romanescas, ou em que há personagens literários.”