Por que traduzir Camões ao crioulo cabo-verdiano?

O poeta e tradutor José Luiz Tavares

No dia 10 de outubro, no Folio 2019, a editora abysmo lançou a tradução de sonetos de Camões ao crioulo cabo-verdiano pelo poeta José Luiz Tavares livro entitulado Ku Ki Vos/Com Que Voz. A apresentação foi do professor António de Castro Caeiro e de José Paulo Cotrim, editor da abysmo.

Em entrevista ao Oceanos, Tavares falou sobre a impossibilidade de se reproduzir a gramática da língua portuguesa em tradução ao crioulo. “Eu nunca tinha tentado escrever na minha língua materna (crioulo) porque não há instrução formal em nossa língua, não é ensinada nas escolas. As pessoas têm aquela competência pragmática, é uma língua natural: nascemos, começamos a falar, mas não dominamos a gramática explícita da língua, apenas a gramática implícita. As pessoas, como são alfabetizadas em português, vão tentar reproduzir o sistema do português no crioulo, e não funciona”, explicou.

Sobre a relevância de seu trabalho com a tradução para afirmação da língua materna, o poeta ressaltou o aporte que a poesia de Camões pode trazer ao crioulo. “É possível, por via da tradução (ao crioulo), criar uma cânone novo. E as pessoas (em Cabo Verde) que vão ler, que vão começar a escrever, já têm este alto modelo”, disse. “Eu não quero que o português seja a língua do sobrado e o crioulo, a língua do quintal. Nós temos que ser um país efetivamente bilíngue. É o que está na nossa Constituição, o que está na nossa matriz cultural. Se os portugueses pensam que vão impor o português que não é o natural do cabo-verdiano, que não é a nossa língua materna por via da espada, o português pode morrer. Enquanto houver um cabo-verdiano o crioulo sobrevive, inclusive na diáspora.”