Um estúdio aberto no Alentejo

Nuno Félix da Costa e Mercedes Vidal-Abarca na Serra da Arrábida

A residência artística Córtex Frontal, criada em 2015 e situada na vila de Arraiolos, destaca-se hoje como espaço de criação e convívio na região do Alentejo. Nessa entrevista com os fundadores da Córtex Frontal, a espanhola Mercedes Vidal-Abarca (radicada em Portugal desde 2008) fala sobre a origem e a dinâmica de trabalho da residência e o artista visual, poeta e psiquiatra Nuno Félix da Costa comenta a interação entre pintura, fotografia e poesia em seus livros – em especial no recente Pequena Voz – Anotações sobre Poesia.

 

Como surgiu a ideia de criar a residência em Arraiolos?

Mercedes Vidal-Abarca Surgiu por casualidade num dia que voltava a casa da escola de pintura onde estudava. Pensei que seria boa ideia comprar uma casa abandonada no Alentejo e iniciar um projeto onde pudéssemos oferecer aos artistas tempo e espaço para criar. Quando cheguei a casa falei com o Nuno da ideia e encontrámos na net as imagens duma casa muito bonita e arruinada em Arraiolos. Telefonámos e no dia seguinte fomos ver…

 

Quais as principais atividades ali desenvolvidas?

Mercedes Vidal-Abarca A principal atividade é receber artistas que desenvolvem projetos num período de entre 3 semanas e 3 meses. Os artistas trabalham nos ateliers da residência mas podem usar outros espaços da vila pertencentes a outras associações com quem temos uma parceria, nomeadamente a oficina de gravura da Associação Imagem Impressa e o estúdio de dança da Casa das Artes.
O resultado da residência, que não é necessariamente um projeto acabado, é mostrado à população e a outros artistas, em forma de Open Studio, projeções de trabalhos, conversas, exposições, coreografias …
A nova parceria com a Câmara Municipal de Arraiolos permite-nos propor exposições mais “acabadas” nos museus municipais. Inaugurámos recentemente uma exposição de fotografia de Susana Paiva no Museu do Tapete.

 

Qual a relação das atividades com a cidade?

Mercedes Vidal-Abarca O facto de haver “estrangeiros na cidade” provoca uma inevitável interação com a população. As pessoas que estão em residência vêm com uma atitude de abertura, de disponibilidade e até de contemplação que agrada muito aos locais. Alguns colaboraram em aulas nas escolas locais.
A população de Arraiolos sempre se mostrou muito aberta e receptiva a pessoas de fora e por isso o rasto que deixam os artistas é profundo também a nível local.
Além disto, desde o princípio criou-se um “Comité de apoio aos artistas” composto por artistas que moram em Arraiolos ou na região e que participam no projeto dando algum apoio aos artistas e animando a sua vida social.

 

Existe maior ênfase em alguma linguagem artística? Quais artistas estiveram no Córtex Frontal até o momento e que tipo de interação há entre eles (caso ali estejam no mesmo período)?

Mercedes Vidal-Abarca Nestes dois anos já recebemos 25 artistas independentes, 3 grupos de trabalho e um seminário. As disciplinas privilegiadas são aquelas às quais o espaço se possa adaptar; felizmente são muitas, porque há muito espaço: pintura, gravura, escrita, coreografia, artes performativas, música, fotografia, teoria da arte tem sido as mais frequentes. Num futuro próximo queremos incorporar as residências musicais após a aquisição dum piano.
A interação entre os artistas é inevitável dado que partilham alguns espaços comuns e dado que os artistas residentes têm vontade e tempo para socializar.
Por outro lado, a casa é grande e por isso também pode cada um desenvolver o seu trabalho sem interferências e nem distrações.

 

O que distingue o programa Córtex Frontal de outras residências semelhantes em Portugal ou em outros países?

Mercedes Vidal-Abarca Os programas de residências são diferentes e irrepetíveis em geral, porque é uma experiência muito ligada ao aqui e ao agora: ao lugar onde se desenvolve o projeto e ao momento pelo qual o artista está a passar. Nesse sentido, a casa localiza-se no coração de uma vila alentejana, o que permite simultaneamente um trabalho recolhido, dadas as características da casa, mas também uma vida social simpática.

 

Nuno, seu trabalho como artista visual e fotógrafo precede, ao menos cronologicamente, a publicação de seus livros de poemas. Qual relação vê entre os dois campos em seu trabalho?

Nuno Félix da Costa Expus pintura na Módulo em 1983, ano em que também publiquei Retratos de Hábito na [editora] Assírio. A poesia veio mais tarde na &Etc em 1995, embora alinhavada antes. Em 2008, fiz a última exposição de pintura, embora numa linha que sempre me interessou, a do cruzamento da fotografia com a pintura, seja subtraindo matéria fotográfica, seja adicionando a pintura. Assim como entre a pintura e a fotografia detecto esta convergência, com a poesia sinto quase uma disjunção, no sentido em que quando penso na poesia não consigo concentrar-me na fotografia e vice-versa. Claro que julgo que em ambas existe uma atitude estética (e ética) semelhante e tendo a olhar para a imagem da fotografia como se se tratasse de uma micro-epopeia.

 

A psiquiatra de alguma maneira “atravessa” sua produção artística?

Nuno Félix da Costa Não creio. Pelo menos de uma forma explícita ou expressa nos conteúdos. De certa forma repugna-me uma aproximação voyeurística da doença mental. Mas é verdade que a psiquiatria é uma prática absorvente e que moldou a minha formação.

 

As “anotações sobre poesia” de Pequena voz (editora Companhia das Ilhas, 2016) avançam, de capítulo em capítulo, de aforismo e aforismo, numa espiral que leva do núcleo primitivo e indefinível do ato poético ao momento, na outra extremidade do processo, da recepção. Essas reflexões obedeceram a esse movimento desde o início, ou foram feitas de modo menos ordenado e depois encadeadas em aforismos numerados? Em que momento de seu percurso surgiu essa meditação metapoética e por que agora ela se condensa em livro?

Nuno Félix da Costa Os aforismos foram escritos ao longo dos anos em paralelo à escrita poética (e à leitura) e depois arrumados em capítulos mais ou menos temáticos para facilitar a leitura. Contudo, dentro de cada capítulo não fiz nenhuma sequenciação argumentativa, pois cada aforismo apareceu no seu momento, isolado dos outros e penso que a sua natureza é um alinhavar de ideias e intuições, que se forem muito esmiuçadas perdem a leveza e a persuasão. Depois, há um momento em que receamos estar-nos a repetir e mais vale parar.