Um resgate da História e da memória nacional

Há um vasto território entre História e Literatura – pouco explorado pelo mercado editorial brasileiro – que agora vem sendo ocupado pela Chão Editora. Fundada em 2018 pela escritora Beatriz Bracher, por seu pai, o banqueiro e ex-presidente do Banco Central Fernão Bracher (1935-2019), e pela editora Marta Garcia, a Chão traz um catálogo que propõe a reflexão sobre a memória e a identidade nacional, estabelecendo pontes entre passado e presente.

A curadoria dos títulos é feita a partir de fontes primárias (diários, relatos, cartas, documentos oficiais) inseridas em um recorte temporal que abrange do século 16 até meados do 20. Os documentos possibilitam um mergulho ao mesmo tempo na história, na época e na cabeça do autor”, explica Marta.

Em 2019, foram publicados o romance abolicionista Fantina, de Francisco Coelho Duarte Badaró, de 1881; o manuscrito Diálogos Makii, do ex-escravo Francisco Alves de Souza, de 1786; o livro de relatos O 15 de Novembro e a queda da monarquia, acerca das experiências vividas pela princesa Isabel, pelo barão e pela baronesa de Muritiba em 1889, e uma compilação de documentos sobre a a voluntária da guerra do Paraguai Jovita Alves Feitosatítulo inaugural da Chão, publicado em maio do ano passado.

Facilitar o acesso do leitor às obras é um dos focos da editora: “Queremos que os livros da Chão dialoguem com um público mais amplo, que circulem muito além da academia”, afirma Marta.

Para estabelecer esse diálogo, a Chão conta com o papel de um historiador–autor das publicações, responsável pela organização dos documentos e pela mediação dos textos com o público. Entre os estudiosos figuram nomes ilustres, como José Murilo de Carvalho – professor emérito da UFRJ e PhD pela Universidade de Stanford – e Sidney Chalhoub, professor do departamento de Estudos Africanos e Afro-americanos da Universidade de Harvard. Para Marta, “os posfácios escritos por eles são verdadeiras janelas que se abrem para a história e permitem muitas pontes com o presente”.

Sobre a dimensão política das publicações – que permitem reflexões acerca de temas que estão no centro dos debates públicos, como as questões de gênero e raça, a violência contra a mulher, a resistência negra etc. –, Marta afirma que não tinham inicialmente a intenção de militância. “A editora começou com a proposta de fazer um resgate da memória, mas se transformou quase uma militância cultural. A Chão acaba tendo um papel político importante neste momento de desmonte geral e tentativa de apagamento da História. Não que isso tenha sido imaginado inicialmente, mas há um diálogo forte das publicações com o que está acontecendo no país – no sentido de reconstruir, resgatar e explicar o Brasil onde vivemos, como o país chegou aonde está”.

Um exemplo é Fantina: cenas da escravidão, de Francisco Coelho Duarte Badaró, que conta “a história de uma jovem escravizada que sofre o assédio sexual persistente e obsessivo de seu senhor”. No posfácio da obra, Sidney Chalhoub ilumina aspectos conceituais desta “estória feita de muitas histórias comum à época”.

Para o primeiro semestre de 2020, a editora já anunciou as novidades: “Temos dois livros de memórias de fazendeiras paulistas, na virada do século 19 para o 20. São mulheres que participaram da expansão cafeeira no oeste paulista, e tiveram experiências muito diferentes entre si. Além disso, temos prevista a publicação de relatos de viajantes ingleses, inéditos, dos séculos 16 e 17.”

Marta – que trabalhou na Companhia das Letras (1990-2012) e na Cosac Naify (2013-2015), entre outras editoras – compara sua longa experiência com a edição de livros de ficção, trabalho que envolve intenso diálogo com o autor, às atividades na Chão: “Aqui, nós não podemos mexer no texto, mas as trocas com o historiador responsável por cada publicação também são muito ricas. Nos livros da Chão, a precisão é fundamental. Há um cuidado quase científico, que exige uma transcrição e uma revisão detalhadas, checagem de fatos e fontes. São desafios diferentes, mas, no fundo, existe essa paixão em comum pelo registro – seja ficcional, seja historiográfico.”

Para contatar diretamente a Chão Editora, escreva para editora@chaoeditora.com.br. Os livros da Chão são distribuídos e comercializados pela Editora 34. O catálogo encontra-se disponível em http://www.editora34.com.br/areas.asp?chao=1.